PARTE 2: O ESPÍRITO DO IMPÉRIO

Marcus não olhou para Flavia, sua voz estava rouca como o som de folhas secas roçando na pedra: “Agora, você é minha. Mas Roma… Roma exige mais do que apenas um nome em um pergaminho.” Ele se levantou, seus passos pesando sobre o chão de mármore. Gotas de óleo ritual escorriam de seu corpo, deixando rastros negros e brilhantes como o sangue da noite. Flavia permanecia ali, com o corpo entorpecido, sentindo que não era mais um ser humano de carne e osso, mas um item de sacrifício que acabara de ser carimbado e verificado. Ele caminhou em direção à estátua de madeira de Mutinus Titinus, aquela forma grosseira que ainda se erguia no canto escuro como um deus faminto. Flavia estremeceu; um súbito ar frio rastejou debaixo da cama, envolvendo seus tornozelos como correntes invisíveis.
A escuridão no quarto não era mais apenas a simples ausência de luz; começara a engrossar, tornando-se viscosa e com o odor de túmulos antigos recém-abertos. De repente, a única vela restante na prateleira de pedra brilhou intensamente e mudou para um azul pálido e gélido. Aquela luz não iluminava o quarto, apenas tornava mais nítidas as coisas que não deveriam existir. No espelho de bronze posicionado à frente da cama, Flavia viu seu reflexo. Mas a sombra não estava parada. Ela estava se sentando, com o pescoço inclinado em um ângulo aterrorizante, e seus olhos eram apenas dois buracos negros profundos. A sombra no espelho sorriu — um sorriso que se estendia até as orelhas, cheio de ódio e dor. “Você acha que é a primeira?” Um sussurro invisível ecoou bem perto de seu ouvido, trazendo um hálito frio com cheiro de sangue seco e poeira de séculos. “Todas nós estamos aqui, Flavia. As Gaias do passado, acorrentadas a esta cama, devoradas por estas leis. Você não se casou apenas com Marcus. Você se casou com todo o cemitério da linhagem Petronius.”
No corredor externo, os passos das testemunhas e os risos da multidão haviam desaparecido completamente, substituídos por um silêncio mortal. Então, o som de garras começou a arranhar as paredes de pedra, um rangido ensurdecedor como se algo estivesse tentando sair de dentro da argamassa antiga. Marcus parecia não ouvir aqueles sons, ou talvez estivesse familiarizado demais com eles. Ele caiu de joelhos diante da estátua de madeira, com os olhos arregalados e as pupilas dilatadas ao extremo. Ele não olhava para sua esposa; estava fixo no vazio atrás dela, onde sombras negras se aglutinavam nas formas de homens vestindo togas rasgadas, cujos rostos foram corroídos pelo tempo até restarem apenas crânios brancos onde deveriam estar as bochechas. “Eles chegaram,” Marcus murmurou, a voz tremendo em uma adoração insana. “Os Lares, os espíritos protetores da linhagem… eles vieram verificar se o seu sangue é puro o suficiente para alimentar os fantasmas dos ancestrais.”
Uma mão pálida, seca como os ossos dos mortos, surgiu subitamente de debaixo da cama, dedos longos e sinuosos tocaram levemente o tornozelo de Flavia e subiram pela sua panturrilha. Ela quis gritar, mas sua garganta parecia cheia de cinzas. Roma a ensinara que o grito de uma mulher era inútil, e nesta noite, aquela regra tornara-se uma maldição real. O quarto começou a girar, o espaço parecendo dobrar-se sob o peso dos espíritos presentes. As paredes de pedra rachadas expeliam um líquido escuro e espesso, com cheiro de ferrugem. Era sangue — o sangue das noivas anteriores, aquelas que morreram em silêncio ou enlouqueceram em quartos fechados como este.
Flavia sentiu o teto parecer descer, pressionando seu rosto. Os rostos dos ancestrais da casa Petronius emergiam da escuridão, pairando sobre ela como abutres esperando por um banquete. O espírito de uma mulher, com um colar de ouro fosco sufocando seu pescoço magro, aproximou-se. Ela fora a primeira esposa desta linhagem, aquela que estabeleceu o precedente da submissão. Ela se inclinou, seus lábios sem carne movendo-se: “Não resista, pequena Gaia. Se você resistir, eles a rasgarão por dentro. Deixe que levem o que querem. Deixe que Roma corroa sua alma; só então você poderá sobreviver nesta podridão.”
Marcus começou a entoar uma língua antiga, não o latim que usavam diariamente, mas um som gutural como o de animais. A cada palavra proferida, as sombras apertavam ainda mais o corpo de Flavia. Ela sentiu uma energia sombria invadindo suas veias, fria e afiada como cacos de vidro. Era a “herança” da linhagem. Eles não estavam apenas testando sua castidade; estavam drenando a identidade de Flavia Tursa para substituí-la por um molde sem alma chamado “Esposa”. Ela viu as memórias de seus pais, dos dias correndo em campos ensolarados, desaparecerem gradualmente, substituídas por imagens de corredores escuros, banquetes silenciosos e crianças que nasceriam com os olhos sem vida dos mortos.
“Ubi tu Gaius, ego Gaia,” Marcus gritou, e desta vez, os espíritos responderam em uníssono. O eco aterrorizante abalou toda a casa. Flavia sentiu seu coração desacelerar, batida por batida, até sincronizar-se com a pulsação da própria cidade de Roma — uma pulsação de pedra, fria e sem compaixão. Ela percebeu que esta noite de núpcias nunca fora sobre amor ou mesmo sobre simples procriação. Era um sacrifício vivo para manter o poder de um império construído sobre ossos brancos e o silêncio das mulheres.
Quando os primeiros raios da aurora vazaram pelas frestas da porta, o quarto retornou abruptamente ao estado normal. Os espíritos desapareceram nas fendas das paredes. Marcus jazia no chão, exausto e vazio. Flavia sentou-se na cama, o lençol de linho manchado com marcas negras inexplicáveis. Ela olhou-se no espelho mais uma vez. A sombra no espelho agora coincidia com ela, mas ao olhar profundamente nos próprios olhos, não viu mais a Flavia de 18 anos. Viu uma entidade antiga, uma mulher que viveu milhares de anos na escuridão das casas romanas. Ela desceu da cama, os pés não sentindo mais o frio do mármore. Caminhou em direção à porta, onde os servos esperavam para anunciar um novo dia. Flavia esboçou um sorriso — o sorriso distorcido da sombra no espelho da noite passada. Roma ganhara uma nova esposa, mas o mundo perdera uma alma. Ela não sentia mais medo, pois os mortos não conhecem o medo. E, de agora em diante, ela era parte da escuridão que governava este império.
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