Parte 2: O Eclipse de Michiko

A ameaça da Sra. Endo pairava sobre Michiko como uma lâmina de guilhotina. Mas o que ninguém sabia — nem James, nem a bisbilhoteira Sra. Shimezu — era que o “campo” para onde os pais de Michiko tinham fugido não era um refúgio de paz. Era um lugar de silêncio e segredos ancestrais.
O Convite de James
Naquela quarta-feira chuvosa, James parecia diferente. Ele não falava de motores. Seus olhos estavam inquietos. “Michiko, recebi ordens. Posso ser transferido para Okinawa em duas semanas. Não posso te deixar aqui, sendo caçada por olhares.”
Ele tirou do bolso uma pequena chave de bronze. “Tenho acesso a uma casa de veraneio requisitada pelo exército perto da costa de Kamakura. É isolada. Ninguém vai nos vigiar. Fuja comigo por este fim de semana. Precisamos de um momento de verdade, longe das ruínas.”
Michiko aceitou. Aos 43 anos, o medo da desonra era finalmente menor do que o medo de morrer sem ter pertencido a alguém.
A Casa dos Sussurros
A viagem para Kamakura foi feita sob o manto da névoa. A casa era uma estrutura elegante de madeira, mas com um ar de abandono melancólico. O mar rugia lá embaixo, batendo contra as rochas como um coração enfurecido.
Naquela noite, à luz de velas, a barreira de décadas finalmente ruiu. James a tocou não como um soldado, mas como um homem que descobre um tesouro enterrado. Pela primeira vez em 43 anos, Michiko não era a “filha obediente” ou a “solteirona desperdiçada”. Ela era pele, calor e desejo. A virgindade perdida aos 43 anos não foi um ato de dor, mas uma exorcização de todos os fantasmas que a assombraram.
No entanto, o romance logo deu lugar a um calafrio inexplicável.
O Retorno dos Pais
Enquanto Michiko descansava nos braços de James, o som de passos arrastados ecoou no corredor de madeira tatami. Não era o som de botas militares. Era o som de sandálias de palha — zori.
Michiko congelou. A porta de correr (shoji) se abriu lentamente. Ali, na penumbra, estavam duas figuras magras, vestidas com quimonos de funeral. Seus pais. Mas algo estava errado. Seus rostos não tinham expressão, e seus olhos eram vazios como poços secos.
“Michiko,” a voz de seu pai era um sussurro seco, como folhas mortas. “Você entregou sua pureza ao inimigo. O sangue de nossa linhagem foi manchado.”
James saltou da cama, pegando sua pistola de serviço. “Quem são vocês? Como entraram aqui?”
“James, não!” gritou Michiko. Mas ao olhar para os pés de seus pais, ela sentiu o sangue gelar. Eles não projetavam sombras sob a luz da vela.
O Segredo de Dezembro
A verdade atingiu Michiko como um golpe físico. Ela se lembrou agora, através de um bloqueio mental que o trauma criara: o bombardeio de 1944 não apenas matou seu pai. Ela estava lá. Ela viu a casa desabar sobre ambos. Ela mesma os enterrou nas ruínas do jardim antes de fugir para Tóquio para trabalhar na fábrica.
As figuras à porta começaram a se contorcer. O rosto de sua mãe começou a rachar, revelando a fumaça negra por baixo. “Nós não morremos para que você fosse feliz com o destruidor,” sibilou a aparição.
A temperatura no quarto caiu drasticamente. As janelas tremeram. James disparou, mas as balas atravessaram as figuras e atingiram a parede. Ele caiu de joelhos, segurando a cabeça, como se vozes estivessem gritando dentro de seu crânio.
“Eles não são seus pais, Michiko!” James gritou entre dentes. “São a sua culpa materializada! Eles estão tentando nos levar!”
O Confronto
Michiko levantou-se. Ela não cobriu sua nudez; ela a usou como um escudo de realidade. Ela olhou para os fantasmas de sua cultura, de sua opressão e de seu luto.
“Vocês estão mortos!” ela gritou, sua voz sobrepondo-se ao som do mar. “Eu dei minha juventude a vocês em vida. Não darei minha alma a vocês na morte. James não é o inimigo. O inimigo foi o silêncio que vocês me impuseram por 40 anos!”
Com um grito de fúria, Michiko pegou a coleção de poemas que James lhe dera e a jogou no braseiro central, criando uma chama alta e brilhante. A luz do presente, da escolha e da paixão moderna pareceu queimar as sombras do passado. As figuras se dissiparam em cinzas e fumaça, deixando apenas o cheiro de incenso e ozônio.
O que aconteceu depois? Na manhã seguinte, a casa estava vazia e silenciosa. James e Michiko estavam exaustos, mas vivos. No entanto, ao voltarem para Tóquio, descobriram que a Sra. Endo e a Sra. Shimezu tinham desaparecido misteriosamente na mesma noite, deixando apenas suas sandálias à porta da casa de chá da Sra. Hayashi.
Você gostaria que eu escrevesse a conclusão definitiva, revelando se Michiko conseguiu fugir com James para a América ou se os fantasmas do Japão ainda guardavam uma última surpresa para eles?










