Nenhuma mulher em toda a aldeia consegue satisfazê-lo Parte II
O sol sobre o leste da Nigéria parecia mais pesado do que o habitual naquela tarde. O ar estava saturado com o cheiro de pólen e terra molhada, mas para Booki, algo estava errado. A paz que ele conquistara ao lado de Afoma, após anos de rejeição e a sombra de uma maldição divina, parecia subitamente frágil. Ele olhou para as mãos, as mesmas mãos que agora cultivavam a terra e embalavam seus filhos, e sentiu um tremor involuntário.
O destino, por vezes, permite-nos ser felizes apenas para que a queda subsequente seja mais dolorosa.
A tragédia começou não com um trovão, mas com o silêncio. Os pássaros pararam de cantar e o vento parou de soprar nas palmeiras. Na orla da aldeia, vultos emergiram da floresta densa. Não eram deuses, mas homens — guerreiros da tribo de Obosi, liderados por um homem cujo coração fora endurecido pelo ódio: o irmão de Shioma, a primeira esposa de Booki. Ele nunca aceitara o “insulto” que a irmã sofrera, e o sucesso de Booki com Afoma era uma ferida aberta no orgulho de sua linhagem. Eles não vieram para conversar; vieram para apagar a linhagem de Booki da face da terra.
O primeiro ataque foi um clarão de fogo. As cabanas periféricas foram incendiadas, e o pânico espalhou-se como veneno no sangue. Booki estava no mercado quando ouviu o primeiro grito. Não era o grito de uma mulher assustada com a sua virilidade, mas o grito de uma mãe vendo o fim do seu mundo. Ele correu. Seus músculos, outrora motivo de zombaria e medo, agora impulsionavam-no como uma fera.
Ao chegar à sua cabana, o cenário era um pesadelo. Mbafor, sua velha mãe, estava caída no chão, empurrada brutalmente por um guerreiro que tentava invadir a casa. Afoma estava à porta, armada apenas com uma faca de cozinha e uma coragem que desafiava a própria morte.
«Afoma! Entra!» rugiu Booki. Sua voz não era mais a de um jovem humilde; era o som de um trovão ancestral.
O líder dos agressores, um homem chamado Okeke, deu um passo à frente com uma catana que brilhava com uma sede maligna. «O homem amaldiçoado pensa que pode ser um herói,» zombou Okeke. «Os deuses deram-te força, Booki, mas esqueceram-se de te dar paz.»
A luta que se seguiu foi uma dança de sangue e desespero. Booki não tinha armas de metal, mas tinha a força de uma promessa cumprida e o peso de um amor que não conhecia limites. Ele desviou-se do primeiro golpe de Okeke com uma agilidade sobre-humana. Com um movimento fluido, ele agarrou o braço de um segundo atacante e, com um estalo seco que ecoou por toda a aldeia, partiu-lhe o osso.
A ação era frenética. Booki movia-se entre os inimigos como um espírito vingativo. Ele recebeu um corte no ombro, depois outro na coxa, mas a dor era apenas um combustível. Ele socava, chutava e arremessava corpos contra as árvores, protegendo a entrada de sua casa com cada gota de seu suor. O chão sob seus pés tornou-se escorregadio, tingido pelo carmesim da batalha.
Afoma, vendo o marido ser cercado por cinco homens, não ficou parada. Ela saltou sobre as costas de um deles, enterrando a faca no pescoço do agressor. Por um momento, eles lutaram como um só — uma harmonia perfeita de proteção mútua. Mas a sorte é uma amante inconstante.
Okeke, percebendo que não venceria Booki em um combate direto, recuou e pegou um arco curto. Ele não mirou no coração de Booki. Ele mirou no coração de Afoma.
«Se não podes ser destruído pela maldição, serás destruído pela perda!» gritou Okeke, soltando a corda do arco.
O tempo pareceu congelar. Booki viu a flecha no ar. Ele sentiu o mundo parar, exatamente como aconteceu quando viu Afoma pela primeira vez no rio. Num esforço final, ele lançou o seu corpo à frente dela. O som do impacto foi surdo, mas profundo. A flecha, pontuada com veneno de víbora, enterrou-se profundamente no peito de Booki, logo abaixo do esterno.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os atacantes, vendo o gigante cair de joelhos, hesitaram. Havia algo de sagrado e terrível na forma como Booki se mantinha erguido, mesmo com a morte cravada no peito. Ele olhou para Okeke com olhos que não pediam clemência, mas que prometiam justiça. Com um último esforço de vontade, Booki arrancou a flecha do próprio peito e, com uma força impossível, lançou-a de volta contra o líder inimigo, atingindo-o na garganta.
Os restantes guerreiros de Obosi fugiram para as sombras, temendo que Booki fosse, de fato, um deus disfarçado de homem.
Afoma correu para ele, segurando a sua cabeça enquanto ele desabava na terra vermelha. Mbafor aproximou-se, soluçando, as mãos trémulas tocando o rosto do filho que ela tanto lutara para proteger.
«Booki… meu Booki…» chorava Afoma, tentando estancar o sangue que insistia em fugir. «Fica comigo. Os deuses aceitaram o sacrifício, eles não podem levar-te agora!»
Booki sorriu, mas o sorriso era tingido de escarlate. A cada respiração, o veneno queimava-lhe as veias, mas a paz em seu rosto era inabalável. «Afoma… meu amor…» sussurrou ele, a voz como o farfalhar das folhas secas. «Eu nunca fui amaldiçoado. A maldição teria sido viver uma vida inteira sem saber como é ser amado por ti.»
Ele olhou para Mbafor, cujas lágrimas caíam sobre o seu peito ferido. «Mãe… não chores. Tu criaste um homem… e um homem morre para que a sua família viva.»
As sombras da noite começaram a envolver a aldeia. Booki sentiu o frio chegar, não o frio da solidão que sentira quando Shioma e Nneche fugiram, mas um frio calmo, o descanso de um guerreiro que terminou a sua jornada. Ele sentiu a mão de Afoma apertar a sua, e o calor daquela conexão foi a última coisa que ele levou consigo para o mundo espiritual.
Booki morreu sob o mesmo céu que o viu nascer, mas já não era o jovem virgem e confuso. Ele era a lenda da aldeia, o homem cuja força era demais para as mulheres comuns, mas cujo amor foi suficiente para salvar um povo.
O funeral foi o mais triste que a aldeia já vira. Não houve música alegre, apenas o som lúgubre de um único tambor. Afoma, vestida de luto absoluto, manteve-se firme, carregando no ventre o fruto da última noite de paz que tiveram. Ela sabia que a história de Booki não terminaria ali.
Anos mais tarde, os netos de Afoma sentavam-se ao redor da fogueira para ouvir a história do “Homem de Ébano”. Eles aprendiam que o verdadeiro perigo não está no corpo, nem no que os deuses pedem como sacrifício, mas no ódio dos homens que não suportam ver a felicidade alheia. E contavam, com vozes baixas e reverentes, que em certas noites de lua cheia, ainda se pode ver um vulto alto e forte guardando a entrada da aldeia, garantindo que nenhuma flecha volte a atravessar o coração do amor.
A história de Booki terminou em tragédia, mas o seu sacrifício tornou-se o solo fértil onde a coragem de uma nova geração cresceu. O amor deles não teve um final feliz, mas teve um final eterno.
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