Foi forçada a casar com um homem deficiente, mas a sua mãe nunca soube.

Binta sabia que a sua mãe não a amava; ela sabia disso desde pequena, o suficiente para entender a diferença entre a bondade e a crueldade. Ela sentava-se do lado de fora da pequena casa de terra, lavando roupas até que as suas mãos ardessem. O sol brilhava intensamente sobre a sua pele escura, mas ela não se atrevia a parar. Se parasse, a sua mãe bateria nela. Lá dentro, o riso ecoava. A sua mãe e as suas irmãs conversavam e riam enquanto comiam as iguarias que Binta preparara. Nunca sobrava nada para ela. “Ela é como o pai”, dizia a mãe, com desprezo.
“O homem que me fez sofrer. Se não fosse por ela, ele ainda estaria vivo.” Binta ouvira essa história muitas vezes. O seu pai a amava, pelo menos era o que os vizinhos diziam. Ele correu ao mercado a meio da noite para comprar remédios quando Binta adoeceu em criança, mas nunca mais voltou. Foi assaltado e morto no caminho para casa. Desde então, a sua mãe culpava-a. “Tu és uma maldição”, gritava ela, um fardo. “Quem me dera que tivesses morrido no lugar dele…” Binta nunca retrucava, nunca chorava à frente delas.
Ela aprendera a engolir a dor como se engole ervas amargas, mas, no fundo, ela ansiava por amor, por alguém, qualquer pessoa que a visse e se importasse com ela. Em breve, o destino concederia o seu desejo de uma forma que ela jamais esperaria. A lenha estalava sob a panela enquanto o vapor subia no ar. O aroma do mingau de milho a ferver espalhava-se pela pequena cozinha, mas Binta sabia que nada daquilo era para ela. Mexia a comida silenciosamente, ouvindo a mãe e a irmã sussurrarem no quarto ao lado. “Ela é inútil”, dizia a mãe, com uma voz afiada como uma faca.
“Pelo menos agora ela trará algo de valor para esta família.” As mãos de Binta apertaram a colher de pau. “O que queres dizer?”, perguntou Sade, com a voz leve e curiosa. “Encontrei um marido para ela.” Binta engasgou. Ouvira rumores sobre raparigas jovens dadas a homens velhos, estranhos de mãos enrugadas e olhos cruéis. “Quem é ele?”, perguntou Sade. “Aman, o traidor aleijado.” Sade soltou uma gargalhada. “Aquele mendigo miserável, que se senta na cadeira de rodas e se arrasta pelo mercado.” Binta sentiu o quarto girar.
Ela já vira o homem antes. Ele sentava-se à beira da estrada vendendo tecidos, movendo-se lentamente na sua cadeira de rodas. As pessoas zombavam dele, chamando-o de homem que nunca conseguiria ficar de pé. A sua mãe estava a entregá-la a ele. “Isso é bom”, disse Sade, ainda a rir. “Deixe-a ir e sofrer. Ela nasceu para a miséria.” A mãe suspirou: “É melhor assim. Nenhum homem de valor jamais se casaria com ela. Pelo menos agora receberei algo em troca. A família de Aman está disposta a pagar com gado e grãos.”
Binta apertou a colher com mais força, com os nós dos dedos brancos. Queria gritar, implorar, recusar, mas sabia que era melhor calar-se. Se falasse, a sua mãe espancaria-a até ela não aguentar mais. Se chorasse, Sade zombaria dela até ao pôr do sol. Então, não disse nada. Engoliu a dor, como sempre fazia. E naquela noite, enquanto a lua observava lá de cima, o seu destino foi selado. O casamento foi pequeno, sem música, sem celebração, apenas uma troca silenciosa entre a sua mãe e os parentes de Aman.
Binta permaneceu imóvel, envolta num pano velho, enquanto a sua mãe forçava um sorriso para os visitantes. “Ela é trabalhadora”, mentiu. “Ela servirá bem ao Aman.” Binta cerrou os dentes. A única vez que a sua mãe a elogiou foi quando estava a ser entregue. Aman estava sentado sozinho num canto, na sua cadeira de rodas. O seu rosto era indecifrável, os olhos escuros e calculistas. Ele disse pouco durante todo o tempo. Ao final da reunião, ele estendeu a mão para a cadeira de rodas e esforçou-se para se mover. “Vem”, disse ele simplesmente.
Binta seguiu-o com o coração disparado. A sua mãe não olhou para trás, não acenou; ninguém se importou com a sua partida. De repente, ela partira. A estrada para a casa de Aman era longa e empoeirada. Binta caminhou atrás dele em silêncio, arrastando os pés na terra batida. O seu coração batia forte de medo. Ouvira as mulheres do mercado cochicharem sobre ele: “Ele é amaldiçoado. Um homem que nem consegue andar direito… Que tipo de vida pode oferecer a uma mulher?”. Agora, ela era a sua esposa. Observou-o enquanto ele se esforçava para avançar. O seu rosto estava calmo. Ele não olhou para ela nem disse uma palavra.
Depois do que pareceram horas, chegaram a uma pequena cabana na periferia da aldeia. O telhado estava caído e as paredes rachadas. A visão fez o estômago de Binta revirar. Esta era a sua casa agora. Aman empurrou a porta de madeira e deu um passo para o lado para ela entrar. A cabana estava quase vazia. Um pequeno tapete no chão, alguns vasos de barro num canto e uma mesa de madeira. Cambaleando perto da parede, Binta engoliu em seco. Conhecera a pobreza a vida toda, mas aquilo era pior do que a casa da mãe. Virou-se para Aman, esperando que ele falasse.
Em vez disso, ele passou por ela, sentou-se tristemente no tapete e tirou as sandálias. “Podes dormir ali”, disse ele, apontando para um canto. As mãos de Binta fecharam-se em punhos. Seria essa a sua vida agora? Dormir no chão, viver em silêncio com um homem que mal a reconhecia? Ela não tinha escolha. Sentou-se no chão frio e abraçou os joelhos contra o peito. Pela primeira vez desde que saíra da casa da mãe, deixou cair uma única lágrima. Os dias passaram, depois as semanas. Binta acordava todas as manhãs antes do sol nascer. Buscava água, limpava a cabana e cozinhava a pouca comida que tinham.
Aman passava a maior parte do tempo no mercado a vender tecidos. Ela começou a ir com ele, carregando o fardo pesado na cabeça enquanto ele empurrava a cadeira de rodas ao seu lado. As pessoas olhavam e sussurravam: “Olha para eles, que casal patético!”. “Ela deve ter sido forçada a este casamento.” “Até um homem amaldiçoado como Aman tem esposa, e eu continuo solteiro”, brincou alguém, fazendo os outros rirem. Binta manteve a cabeça baixa, fingindo não ouvir, mas cada insulto queimava dentro dela. Aman nunca reagia; simplesmente montava a sua barraca e sentava-se em silêncio.
Um dia, enquanto Binta arrumava os tecidos, notou algo estranho: o tecido era fino demais, rico demais para um pobre traidor. Passou os dedos sobre a seda macia, franzindo a testa. De onde Aman tirava materiais tão caros? Quis perguntar, mas o rosto dele era indecifrável como sempre. Então, não disse nada. Ela e Aman mal conversavam, mas algo estava a mudar. À noite, quando ela terminava de cozinhar, ele esperava que ela comesse antes de se servir. Quando ela carregava fardos pesados, às vezes ele pegava num pouco para aliviar o peso. Ele nunca a bateu, nunca levantou a voz nem a insultou.
Ela fora entregue como um fardo, mas, pela primeira vez, não se sentia completamente invisível. O sol pôs-se, projetando longas sombras. Binta ajeitou a cesta na cabeça, com os músculos doloridos. Aman caminhou ao seu lado, a sua cadeira de rodas afundando na terra. Os sussurros seguiam-nos, mas hoje algo diferente aconteceu. Na barraca, uma mulher aproximou-se e tocou num pano azul escuro com ceticismo. “Isto é fino demais para um homem como tu vender”, disse ela, com dúvida. Aman não disse nada. Binta ficou tensa, esperando que ele se encolhesse, mas ele endireitou-se: “A qualidade fala por si só”.
A mulher zombou, mas testou a resistência do tecido e acabou por comprar três jardas. Os olhos de Binta arregalaram-se. Era a primeira vez que via Aman impor-se com confiança. Quando a mulher se afastou, Aman virou-se para Binta e, por um instante, ela viu um lampejo de orgulho. Sumiu num instante, mas deixou o coração de Binta a bater de forma estranha. Talvez houvesse mais em Aman do que ela imaginava. Naquela noite, o céu trovejou e o vento uivou. Dentro da cabana, a luz da vela tremeluzia. Binta remendava uma camisa de Aman enquanto ele observava a chama.
Pela primeira vez, o silêncio não era pesado. De repente, Aman perguntou: “A tua mãe alguma vez te tratou bem?”. A agulha escorregou dos dedos de Binta. Ela encarou-o, surpresa. Ele hesitou e balançou a cabeça levemente. “Não”, disse Aman, observando-a. “Nem uma única vez.” Binta engoliu em seco. Memórias de exclusão passaram diante dos seus olhos. Aman assentiu lentamente, como se entendesse o que não fora dito. A tempestade lá fora aumentava, mas Binta sentia um calor estranho. Ali estava aquele homem, a quem todos chamavam de mendigo, demonstrando preocupação por ela.
Na manhã seguinte, o céu estava limpo. Binta acordou cedo, mas Aman já estava sentado do lado de fora. Quando ela passou, ele disse sem levantar os olhos: “Fica em casa hoje”. Binta congelou. “Tu tens trabalhado demais. Descansa.” Ninguém nunca lhe dissera para descansar antes. Ela hesitou, mas Aman interrompeu: “No mercado, eu desenrasco-me”. Pela primeira vez, ela ouviu. Enquanto o observava caminhar sozinho para o mercado, sentiu algo novo: confiança. Sozinha, Binta pensou se a sua mãe teria notado a sua ausência. Provavelmente não.
Enquanto divagava, vozes ecoaram perto da cabana. “Ainda não entendo como ela foi parar com ele”, disse uma vizinha. “Deve ser amaldiçoada. Nenhuma mãe entregaria a filha a um aleijado a menos que se quisesse livrar dela.” Binta cerrou os punhos. Elas tinham razão sobre a sua mãe, mas o que ninguém sabia era que Binta começava a sentir liberdade. Pela primeira vez, ninguém a controlava nem a zombava dentro da sua própria casa. Ela não era mais uma serva. Ela sentia que pertencia a algum lugar.
Binta esperou a tarde toda. O sol punha-se quando viu Aman ao longe. Algo estava errado. Os seus ombros estavam rígidos. Conforme ele se aproximava, ela viu que o seu lábio estava cortado e a bochecha inchada. Binta correu até ele. “O que aconteceu?” Aman exalou: “Nada”. Ele entrou na cabana em silêncio. Binta seguiu-o e viu um arranhão profundo no seu braço. Ela ajoelhou-se e começou a limpar o ferimento com água, sem pedir permissão. “Estou habituado a ser insultado”, murmurou ele. “Hoje decidiram fazer mais do que falar. Disseram que eu não tinha o direito de vender tecidos melhores que os deles.”
O estômago de Binta revirou. Ela terminou de limpar o ferimento e falou com firmeza: “Amanhã vamos juntos”. Aman pareceu genuinamente surpreso, e algo profundo brilhou nos seus olhos antes de ele assentir. Na manhã seguinte, os sussurros recomeçaram assim que chegaram ao mercado. Binta cerrou os dentes e ficou ao lado dele. Quando os clientes se aproximavam, ela falava com confiança sobre as cores e a qualidade. As pessoas ouviram-na. Ao pôr do sol, tinham vendido mais do que nunca. Aman olhou para ela e disse baixinho: “Obrigado”. Binta percebeu que não estava apenas a sobreviver; estava a lutar, e não estava sozinha.
A caminhada para casa foi silenciosa, mas confortável. Na cabana, Aman suspirou de cansaço e admitiu que sentia dor. Binta cuidou dele novamente, pressionando um pano frio na sua bochecha. Ele confessou: “És diferente do que eu esperava. Pensei que me odiarias por te terem entregue a mim”. Binta baixou o olhar: “Talvez eu estivesse com raiva, mas agora… não tenho a certeza”. Eles sentaram-se em silêncio, começando a entender-se. Os dias seguintes foram bons, até que uma tarde, na barraca, Binta ouviu uma voz familiar: “Ora, ora, vejam só”.
A sua mãe e Sade estavam lá, vestidas com joias. A mãe zombou do aspeto de Binta e perguntou se ela sentia falta de casa. Aman interveio: “Ela não é prisioneira. Pode ir embora quando quiser”. Sade riu, sugerindo que a mãe encontraria outro marido para ela. Binta olhou para Aman, o homem que lhe dera um lar e respeito, e percebeu que não queria partir. Sorriu e disse: “Não, acho que vou ficar”. O poder da escolha fê-la sentir-se bem. A mãe, furiosa, chamou-a de tola e disse que a maldição a seguiria.
Binta enfrentou-a: “Acho que a única maldição que eu carregava eras tu”. A conversa terminou ali. A mãe e a irmã partiram e o mercado voltou ao normal. Aman olhou para ela com respeito. Naquela noite, Binta não conseguia dormir. Aman estava à porta, observando a lua. Ele perguntou sobre o seu pai. Binta contou a verdade: “Eu estava doente, ele saiu para buscar remédio e nunca voltou. A minha mãe culpou-me”. Aman virou-se para ela e disse com firmeza que ela não tinha culpa. Aquelas palavras curaram algo profundo nela.
Na manhã seguinte, um rapaz de doze anos bateu à porta, ofegante. “Tu és a Binta? A tua mãe mandou-me. Ela diz que aconteceu algo mau e que precisas de voltar para casa urgente.” O coração de Binta disparou. Ela trocou um olhar preocupado com Aman, sentindo que algo estava muito errado.










