Como a Rainha Matilde sucumbiu à peritonite fecal

O fedor tornou-se sua sombra e o pus, sua coroa eterna. Foi assim que as Matildas dos tempos modernos descreveram seus últimos meses. A Inglaterra se lembra de sua rainha não por seus atos de misericórdia, mas pelo fedor que não pôde ser erradicado das paredes do palácio. Cada aparição dela é um choque para os pretendentes. Isto não é ficção, amigos; é a verdade repugnante. Se você assistiu até o 9º minuto da história, tem o meu respeito; outros já o teriam desligado. Tudo começou no inverno de 1135, quando Matilda quebrou as regras e foi ao bordel mais fétido de Londres. Ali, em meio aos colchões molhados, às prostitutas doentes e ao fedor do esgoto, a rainha sentiu pela primeira vez uma pontada aguda no estômago, uma dor tão intensa que por um instante sua visão escureceu. Ela tentou fingir que nada tinha acontecido, mas, ao retornar ao palácio, começou a sangrar imediatamente. Os criados encontraram lençóis sujos, carne podre com um forte odor, e a cada dia que passava, a situação só piorava.
Na primavera de 1135, o mau cheiro tornou-se o cartão de visita da realeza. Quando ela passou pelo salão, os cortesãos taparam o nariz e as damas de companhia desmaiaram no chão. Ninguém se atrevia a chegar a menos de três passos. Nos aposentos de Matilda, havia recipientes com vinagre e ervas amassadas, mas tudo foi em vão. O cheiro de terra úmida, sangue e pus emanava de debaixo de suas saias. Os guardas na porta tentavam se proteger da corrente de ar, e as damas de companhia se revezavam levando lenços à boca para evitar vomitar ali mesmo na sala do trono. Falar oficialmente sobre a doença era proibido. Qualquer piada sobre um trono em ruínas ou a maldição da rainha era punível com expulsão, sem direito a retorno. Mas os guardas relataram que gemidos e murmúrios podiam ser ouvidos à noite, como se os aposentos fossem ocupados não por uma mulher, mas por uma criatura do submundo. Os criados tinham medo de levar os lençóis sujos para fora, pois o tecido literalmente se desfazia em suas mãos devido ao pus absorvido. Às vezes, à noite, Matilda gritava tão alto que os vidros das janelas tremiam e seu marido desaparecia do palácio sob o pretexto de assuntos importantes. Embora todos soubessem, ele simplesmente não suportava o fedor.
Com o tempo, as coisas só pioraram. Sangue e pus amarelo-esverdeado escorriam pelas anáguas, deixando manchas repugnantes no trono. Os criados retiravam o tecido dos assentos ao amanhecer, queimavam tudo e encomendavam móveis novos todas as semanas. Os nobres costumavam brincar em voz baixa, perguntando: “Quem viverá mais tempo, o trono ou a rainha?” No verão, Matilda mal conseguia ficar de pé. Duas criadas a amparavam, mas mesmo elas usavam luvas de couro para evitar tocar no tecido infectado. Qualquer pessoa que se aproximasse era recebida pelo cheiro nauseante de mofo e algo animalesco que havia se instalado em seu corpo. Em uma sala separada, eles queimaram resina e acenderam fogueiras, mas tudo foi em vão. O cheiro corroeu até mesmo o mármore e os painéis de carvalho. A essa altura, as doenças haviam se tornado o flagelo da corte. Até mesmo os conselheiros mais devotados evitavam a rainha, e os servos competiam para ver quem conseguia ficar mais tempo em seus aposentos antes de saltar para o campo aberto. Matilda tornou-se um lembrete vivo de quão rápido a grandeza pode se transformar em completa humilhação. Tudo ao seu redor continuou a se deteriorar junto com ela.
A primavera de 1136 começou com um fedor insuportável que literalmente emanava de cada fresta do palácio. A rainha Matilda não estava simplesmente sofrendo; sua doença a transformara em uma fonte constante de humilhação, horror e repulsa para todos que se aproximavam. Uma perfuração intestinal lhe dera o que muitos cortesãos chamavam secretamente de vida através da decomposição. Cada dia não era uma nova oportunidade, mas sim a continuação do pesadelo. A peritonite fecal a consumia por dentro, causando tanta dor e odor que até mesmo aqueles acostumados à sujeira e à doença perdiam a compostura. Em abril de 1136, Matilda percebeu que não podia mais confiar em médicos ou milagres. Ela anunciou uma inspeção de cura na sala do trono, na esperança de que pessoas comuns e curandeiros da cidade pudessem encontrar uma solução onde a medicina do palácio tivesse falhado. O pátio estava repleto de bancos e barris de água, e a própria rainha foi levada em uma maca e sentada bem no meio do salão sobre lençóis que, em menos de uma hora, estavam encharcados de sangue e sujeira. Ver a rainha naquele estado já era vergonhoso o suficiente, mas o cheiro era ainda mais aterrador. Atacou o nariz e literalmente sufocou os sentidos.
Inicialmente, a multidão manteve-se à distância, mas, por uma moeda de prata, ousaram aproximar-se para examinar ou mesmo tocar a barriga inchada da rainha, coberta de feridas e escoriações. Alguns dos pobres esperavam que um toque milagroso lhes trouxesse boa sorte. Outros esperavam que a rainha atendesse aos seus desejos. Mas nem orações, nem ervas, nem amuletos ajudaram. Um dos charlatães chegou a tentar lamber a pele inflamada; ele morreu três dias depois, mas isso não desanimou os outros. Além da escuridão e de um fedor interminável, no final de maio de 1136, Matilda já não estava simplesmente doente; ela havia se tornado um espetáculo para os amantes de emoções fortes. Todos os dias, multidões se reuniam sob as janelas do palácio para ouvir histórias sobre a rainha apodrecendo viva. Os médicos da corte, exaustos pela sua impotência, criavam novas maneiras de aliviar o seu sofrimento. Aplicaram bolos de bile de cabra em seu estômago, esfregaram-na com mel e suco de cebola e fizeram sangrias, mas tudo em vão. Após cada tratamento, o cheiro só piorava, e o tecido de suas roupas ficava mais pesado com o pus e as fezes que vazavam da ferida.
Em junho de 1136, Matilda já não conseguia se mover sozinha. Os criados a vestiram com uma capa especial embebida em alcatrão para, ao menos em parte, disfarçar o mau cheiro, mas isso só intensificou o tormento. Por baixo do pano, sua pele apodrecia, as feridas aumentavam e o pus corroía sua carne ainda mais rapidamente. Numa tentativa de aliviar seu sofrimento, ela estava sentada em uma cadeira especial com um buraco para que o líquido escorresse para recipientes que precisavam ser trocados a cada hora. O cheiro e o conteúdo desses recipientes eram tão insuportáveis que até os servos mais resistentes perdiam a consciência por longos períodos ou, ao saírem correndo, sofriam crises de vômito. Matilda ainda tentava impor sua autoridade, demonstrando sinais de controle. Ela organizava sessões demonstrativas de cura, ordenando aos pretendentes mais corajosos que tocassem sua barriga, cheirassem as palmas das mãos enquanto limpavam seus ferimentos e trouxessem seus remédios caseiros. Algumas pessoas, por medo ou ganância, lambiam a pele ou a besuntavam com uma mistura de vinagre e cinzas.
Certo dia, durante um desses rituais, um homem, carpinteiro de profissão, empolgou-se demais e mordeu a carne inflamada, deixando uma marca de dente e causando à rainha mais uma crise de dor. Ele foi imediatamente levado para o pátio, condenado à morte e decapitado na frente dos outros para garantir que ninguém ousasse repetir tal coisa. Cada novo dia trazia novos tormentos para Matilda. Todos os tecidos que entraram em contato com o corpo dela tiveram que ser destruídos imediatamente; caso contrário, o mau cheiro impregnaria o palácio. Ratos apareceram nos aposentos, atraídos pelo cheiro de sangue e pus, mas os criados tiveram medo de envenená-los, pois o veneno poderia contaminar os lençóis e agravar o sofrimento da rainha. Às vezes, ela obrigava os criados a deixarem as portas escancaradas para ao menos ventilar o cômodo, mas isso só atraía mais insetos e os cães vadios que sentiam o cheiro da carne em decomposição. Durante esse período, as damas de companhia tentavam evitar os salões reais. Até mesmo as famílias inglesas mais influentes começaram a mandar suas filhas para longe da corte.
Ninguém queria arriscar a saúde por causa de um público duvidoso. Matilda estava cada vez mais cercada apenas por criados, curandeiros da cidade e, ocasionalmente, por pessoas pobres que não tinham nada a perder. Cada dia se tornava um relato de sua deterioração: novas feridas, novas secreções, respiração cada vez mais ofegante e olhar cada vez mais turvo. Parecia que o fundo do poço já havia sido atingido, mas um novo abismo se abria à frente. No outono de 1136, decidiu-se intensificar a inspeção de cura e permitir a entrada até mesmo de feiticeiros de rua. Não apenas charlatães urbanos acorreram ao palácio, mas também curandeiros itinerantes e feiticeiros do País de Gales e da Irlanda. Todos prometeram milagres, mas nenhum conseguiu aliviar nem um pouco o sofrimento de Matilda. Ela própria começou a implorar por ajuda, às vezes ordenando que pedaços de carne em decomposição fossem cortados ou que feridas fossem cauterizadas com ferro, mas tudo em vão. A dor e o mau cheiro só aumentaram. Sem fim, sem alívio, apenas uma nova dose de humilhação.
Em janeiro de 1137, a rainha Matilda estava praticamente confinada aos seus aposentos. Não por escolha própria, mas porque seu próprio corpo, transformado pela doença, tornou-se uma prisão de tormento. Cada hora parecia uma tortura. Uma dor aguda dilacerava seu abdômen, e o cheiro pútrido tornou-se tão insuportável que suas criadas não conseguiam mais trocar seus lençóis ou esvaziar seus penicos. Os médicos da corte iam e vinham, mas nenhum conseguia oferecer nada além de medidas paliativas e mais picus, o que só aumentava o sofrimento da rainha. Em fevereiro de 1137, Matilda já havia perdido quase todo o seu orgulho anterior. Suas roupas não eram mais um símbolo de poder; agora eram apenas pedaços de tecido encharcados de suor, pus e sangue, amarrados com bandagens para esconder as úlceras e fístulas em seu estômago e coxas. Ela passou a desconfiar extremamente de todos ao seu redor. Os funcionários eram revistados na entrada e na saída para garantir que ninguém removesse sequer um pedaço de linho ou tecido que tivesse entrado em contato com o corpo dela. Matilda temia maldições e o mau-olhado, exigindo que tudo que tocasse sua pele fosse queimado. Isso só aumentou o medo entre os habitantes do palácio. Todos que trabalhavam ao lado da rainha sabiam que um movimento em falso poderia levá-los a serem suspeitos de bruxaria ou traição.
Nos dias seguintes, as fronteiras entre o horror e a realidade se tornaram indistintas. Em março de 1137, um odor estranho, uma mistura de peixe podre e vinho azedo, foi detectado pela primeira vez na cozinha do palácio. Esses eram novos médicos contratados por recomendação dos curandeiros. Um deles propôs uma medida desesperada, utilizando peixes exóticos da França para examinar o peritônio em decomposição. O procedimento parecia insano até mesmo para os padrões da medicina medieval. O peixe, branco, criado especialmente em pântanos lamacentos, deveria ser inserido na úlcera, onde ficaria vermelho. Os médicos iriam determinar a profundidade da infecção e se havia alguma chance de remover o pus. Matilda tomou a decisão por conta própria e permitiu que os médicos realizassem o procedimento nela. Os criados trouxeram uma bacia de gelo para tentar aliviar um pouco a dor, mas nem mesmo a água gelada ajudou. O peixe se contorceu na ferida, causando uma dor insuportável. Matilda gritou de dor, e todo o palácio ouviu seus gritos. As janelas tremeram. Os guardas nos corredores, incapazes de suportar a cena, saíram correndo para a rua, e alguns criados nunca mais voltaram ao trabalho depois de presenciarem o que viram.
Os médicos se reuniram ao lado da cama da rainha e registraram às pressas onde manchas de sangue haviam aparecido nos peixes. Descobriram múltiplas úlceras penetrantes, inflamação e acúmulo de pus com odor fétido. Devido ao medo e à dor constantes, Matilda começou a perder o controle. Suas mãos tremiam e ela começou a massagear convulsivamente o esfíncter, na esperança de aliviar a dor de alguma forma. Isso só piorou a situação. Além das úlceras, surgiram rachaduras e sangramentos, e o cheiro tornou-se quase insuportável. A rainha insistiu em esfregar a barriga com bile de cabra, mel e mostarda, mas isso só levou à formação de novas úlceras. Na tentativa de encontrar algum alívio, Matilda começou a depender de curandeiros da aldeia que foram trazidos ao palácio sem qualquer exame. Alguns trouxeram pomadas que causavam ardência; outros sugeriram fumar ervas nas câmaras. Alguns até mesmo encenavam rituais inteiros, aspergindo a rainha com misturas contendo partes de sapos e cobras. Após cada nova experiência, a dor só se intensificava e a carne ao redor das feridas ficava azulada e inchada.
Durante um desses rituais, em abril de 1137, a rainha foi picada por uma abelha diretamente em uma ferida aberta em seu estômago. Isso resultou em febre alta, calafrios e novas crises de dor. Seu corpo ficou coberto de manchas vermelhas, e o rosto de Matilda inchou tanto que nem mesmo seus servos mais próximos a reconheceram como a rainha. Seus olhos lacrimejaram, seus lábios racharam e várias feridas novas apareceram em seu pescoço. A própria rainha mal dormiu. O tormento persistia dia e noite. Sua cama estava constantemente úmida de suor, pus e lágrimas. Às vezes, os criados notavam Matilda olhando para o nada por longos períodos, sem responder a nenhuma palavra, e então, de repente, levantando-se de um salto, exigindo a troca dos lençóis e a queima de todos os travesseiros. Nesses momentos, todos que estivessem por perto se apressariam para sair o mais rápido possível. A rainha poderia, de repente, soltar um grito, atirar um vaso de ervas no chão ou derrubar um penico. As pessoas ao seu redor passaram a ter cada vez mais medo da rainha. Os médicos, que antes solicitavam audiências e sonhavam com o favor real, agora temiam ser apanhados no fogo cruzado e acusados de ignorância ou traição.
Até mesmo os assessores começaram a deixar a cidade com mais frequência, alegando compromissos de trabalho apenas para evitar ficar perto dela. Moscas infestavam constantemente as câmaras, e vermes apareciam nas frestas do chão. Tudo isso havia se tornado parte invariável da vida no palácio. Cada novo amanhecer trazia consigo uma decadência ainda mais insuportável. Em maio de 1137, a doença de Matilda tornou-se uma catástrofe para toda a corte. Pus, sangue e fezes escorriam de seu abdômen rompido, e o fedor se infiltrava pelas paredes, impregnando o chão, o mármore e até mesmo os tapetes colocados sob a cama real. O mais assustador era que ninguém no castelo mais acreditava em uma recuperação; todos esperavam apenas um fim que nunca chegou. Em junho de 1137, uma nova regra foi introduzida em todo o palácio: ninguém podia permanecer perto da rainha por mais de 3 minutos sem um novo respirador ou medicação fresca.
Os guardas dos aposentos eram substituídos a cada hora, e as damas de companhia organizavam seus turnos de forma que ninguém entrasse no quarto de Matilda duas vezes no mesmo dia. Aqueles que permanecessem por mais tempo tinham direito a receber o dobro do salário, mas mesmo os criados mais pobres só aceitavam isso sob ameaça de punição. O comportamento da rainha tornou-se cada vez mais imprevisível e cruel. Ela interpretava qualquer sinal de nojo, qualquer repulsa pelas suas feridas ou pelo mau cheiro como uma ofensa pessoal. No verão de 1137, ela pessoalmente ordenou que duas criadas fossem despidas e obrigadas a ficar nuas ao lado de sua cama até que parassem de franzir o nariz ou cobrir o rosto com as mãos. Acredita-se que uma delas desmaiou devido ao calor e à umidade, enquanto a outra, diante de toda a nobreza, urinou nas calças, sendo posteriormente banida da corte para sempre. Matilda exigia que novos objetos fossem aplicados em seus ferimentos: taças de prata, livros preciosos, até mesmo cortesãos tocando suas nádegas, acreditando que objetos sagrados ou caros poderiam atenuar os efeitos da doença.
Quando os criados reclamavam, ela fazia questão de puni-los. Certo dia, em julho de 1137, insatisfeita com o travesseiro por não ser macio o suficiente, ela despejou o conteúdo de um penico de pus diretamente nas mãos de um criado. A mulher nunca mais voltou à corte, e a própria rainha, durante uma semana depois disso, restringiu o acesso a todos, exceto aos servos mais jovens, alegando que as crianças eram mais puras que os adultos. Os médicos finalmente se recusaram a assumir a responsabilidade por sua saúde. Matilda, não aceitando isso, executou três deles por ignorância. Ordenaram que seus corpos fossem jogados no fosso junto às muralhas do castelo, para que todos pudessem ver que a dor e a morte infligidas pela rainha não se limitavam a uma só pessoa. Depois disso, nenhum dos curandeiros ou médicos ousou sequer se aproximar do quarto sem ordens especiais.
Em agosto de 1137, o pátio tornou-se palco de uma nova cena. Em meio à turbulência, quando todo o país aguardava mudanças, uma manada de touros solta dos matadouros da cidade atacou a cidade. Houve barulho, rugidos, pânico e, de repente, a própria Matilda apareceu na varanda descalça, vestindo uma camisola ensanguentada e com um ferimento supurando líquido. Ela levantou a bainha do vestido para mostrar a ferida aos animais e às pessoas, na esperança de assustar os touros com sua feiura. A multidão primeiro congelou, depois se dispersou horrorizada. Até mesmo os animais, sentindo o cheiro da decomposição, recuaram, e alguns até correram de volta pelos portões. Após esse incidente, os membros do tribunal discutiram apenas uma coisa: quando isso finalmente terminaria? Os criados agora mal olhavam para a rainha, cumpriam as ordens em silêncio, evitando qualquer emoção, com medo de serem vistos como demonstrando desprezo ou piedade. Todos que tinham condições financeiras imploravam para serem libertados do palácio, mas muitos foram mantidos sob ameaça de execução.
Matilda continuou a convocar curandeiros de rua, vagabundos e até mesmo aleijados para seus aposentos. Acreditando que somente as classes mais baixas poderiam curá-la, ela oferecia banquetes para elas, banquetes modestos com comida que a maioria das pessoas vomitaria. Mas nessas festas, ela exigia que os convidados tocassem em suas feridas, cheirassem suas bandagens e, às vezes, trouxessem seus próprios talismãs. Aqueles que se recusavam eram enviados para o porão, onde eram espancados e mantidos sem água. A rainha sentia um estranho prazer ao ver o sofrimento daqueles que a rodeavam. E a cada sessão, o humor dela melhorava, mas apenas por um curto período. Em outubro de 1137, a rainha Matilda tornou-se mais do que apenas uma reclusa; ela havia se tornado um completo objeto de medo e desprezo para toda a corte. Os criados agora apareciam em seus aposentos apenas aos pares, para se apoiarem mutuamente, e as novas ordens de Matilda eram tão absurdas quanto cruéis. Ela exigia ser carregada constantemente pelo palácio, embora suas pernas já não a sustentassem, e cada aparição sua provocava uma onda de sussurros, gemidos e gestos de desgosto.
Em novembro de 1137, o poder da rainha havia se tornado uma farsa. Os cortesãos já não discutiam leis ou assuntos de Estado, apenas aguardavam o fim da doença. Matilda emitiu vários decretos absurdos, como proibir risos nos corredores e punir qualquer pessoa que espirrasse ou fizesse um gesto de desprezo acidentalmente em sua presença. Ela obrigava seus assessores a ouvirem durante horas relatos delirantes sobre novos tratamentos e ameaçava arrancar a língua de qualquer um que duvidasse de sua sanidade. Os criados usavam trapos sujos para limpar o sangue que escorria de seu corpo e garantiam que ninguém ultrapassasse a linha de pus que se acumulava no chão, tentando assim exercer algum controle sobre aquele mundo efêmero. Seu último capricho era um passatempo estranho: andar de burro, supostamente para melhorar a digestão. Isso exigiu a construção de uma sela especial e o seu revestimento com resina, mel e ervas. O burro mal conseguia suportar o cheiro e o peso da rainha, e cada passeio desse tipo se tornava um espetáculo para toda a nobreza.
Os criados abriram as janelas com antecedência para arejar o mau cheiro, e absinto e resina foram queimados nos corredores. Certo dia, ao amanhecer, num frio dia de novembro, durante uma caminhada rotineira pelo pátio, o animal assustou-se, lançou-se para a frente e a rainha deslizou até ao chão, batendo com a barriga na borda de um canteiro de flores de pedra. O sangramento começou imediatamente. Um líquido escuro e espesso escorria de uma ferida em seu estômago, e suas roupas estavam encharcadas de pus com odor fétido. Os criados se apressaram, hesitantes em se aproximar. Eles sabiam que qualquer passo em falso também poderia ser fatal para eles. Matilda rastejou com dificuldade em direção à parede, deixando um rastro de sangue, fezes e catarro por onde passava. Nenhum dos pretendentes se aproximou. Até mesmo os servos mais leais se afastaram, aterrorizados ao assistir à lenta agonia da mulher que tão recentemente ditara a vontade de todo um país. Durante toda a noite, o palácio esteve repleto de sons estranhos: os gemidos da rainha, o gotejar de líquidos, o correr de ratos, o cheiro de sangue.
Pela manhã, quando os primeiros raios de sol iluminaram os aposentos, o corpo de Matilda jazia sobre as lajes de pedra, mutilado em uma poça de seus próprios excrementos. Seus olhos estavam abertos e sua boca se contorceu em uma última careta de horror. Apenas alguns criados circulavam pelo local, obrigados a remover o cadáver e cobrir a área com cal. Nos dias seguintes, o silêncio reinou no castelo. O cheiro de decomposição ainda pairava no ar, mas ninguém mais tinha medo de entrar nos aposentos reais. Todos sabiam que o pesadelo havia acabado. Roupas novas, tapetes novos e cal fresca não conseguiram apagar completamente os vestígios de sua doença. O mármore foi chamuscado pelo ácido do pus. As vigas de madeira estavam impregnadas de mau cheiro e, mesmo meses depois, pequenos ossos de animais atraídos pela decomposição ainda eram encontrados no palácio. A morte de Matilda marcou o momento final de sua vergonha. Nenhuma família nobre desejou reclamar o corpo dela. Ela foi enterrada sem uma procissão suntuosa e, durante muito tempo, até mesmo os padres evitaram o local do sepultamento. Os nobres logo esqueceram seu medo e desprezo. Mas o povo comum se lembrava de outra coisa: a história de uma rainha que morreu sozinha, sepultada sob sua própria imundície e os escárnios da multidão. Ela morreu não como governante, mas como símbolo da completa decadência humana e moral. Um lembrete vívido para todos os seres vivos de que o mau cheiro e o pus podem destruir mais do que qualquer guerra ou peste.










