O ar é espesso, quase mastigável, uma mistura sufocante de incenso pesado, óleo de mirra e algo mais que mal tem cheiro, mas que você sente de qualquer maneira: o medo. A única luz na sala vem dos raios moribundos do pôr do sol, filtrados por camadas de cortinas de seda. Tudo está manchado de um âmbar doentio, como se toda a câmara estivesse submersa em mel estragado. Este não é o esplendor público brilhante de Susa ou Persépolis; isso é mais profundo do que isso, oculto, privado. Estamos dentro do próprio mundo interior fortificado do rei.
Servas movem-se rapidamente, seus dedos deslizando sobre a pele macia enquanto esfregam óleo perfumado. Suas mãos tremem, mas não de frio. A garota que estão preparando é pouco mais que uma criança; suas clavículas erguem-se nítidas e frágeis sob o véu fino que lançaram sobre ela. Ela não sabe se é a número cem ou a número mil neste labirinto; números perdem o significado rapidamente. Ela sabe apenas uma coisa, uma verdade tão fria que congela o sangue em suas veias: o homem que espera na sala ao lado não é apenas o Rei dos Reis, não apenas o governante de milhões da Índia à Grécia, não apenas o rosto terreno de Ahura Mazda; ele é o pai dela.

Do lado de fora, o Império Persa parece a maravilha do mundo, uma máquina imparável de conquista e ordem. Xerxes I senta-se no seu topo. Ele possui riqueza além da imaginação, comanda a vida e a morte com uma palavra. Mas o poder, quando se torna absoluto, não governa apenas a terra; ele devora a alma. Ele exige violações cada vez maiores apenas para se sentir real. E atrás de muros dourados, dentro de câmaras guardadas por eunucos onde nenhuma lei humana pode chegar, o poder absoluto apodreceu em depravação absoluta. Esta não é uma história sobre grandes batalhas; é a história de uma prisão vestida de seda e de um crime enterrado dentro da própria árvore genealógica, um segredo que os historiadores gregos apenas ousavam sussurrar, nunca sendo ousados o suficiente para escrever abertamente.
Para entender a queda de Xerxes, precisamos entender a máquina que o criou, porque o harém real persa não era apenas uma casa de prazeres; era política, uma instituição, um estado dentro do estado com suas próprias regras ocultas. Quando Xerxes herdou o trono de seu pai, Dario, o Grande, ele não herdou apenas território; ele herdou este sistema de controle. O harém era uma arma. Ele ficava no ventre do palácio, construído para que ninguém entrasse sem permissão e ninguém saísse. Corredores intermináveis, portas de cedro tão pesadas que engoliam o som, jardins internos onde a luz do sol entrava e nunca conseguia escapar.
Lá dentro viviam centenas de mulheres, prova viva da conquista persa: princesas de reinos derrotados enviadas como garantias de paz, filhas de nobres persas oferecidas como tributo para manter suas famílias leais, dançarinas, músicas, concubinas de todas as províncias, um mosaico humano do império. Cada mulher tinha um lugar em uma hierarquia rígida, e cada uma delas era propriedade do estado. E quem administrava essa prisão luxuosa? Os eunucos. Homens despojados da capacidade de serem pais e, com isso, despojados da lealdade a qualquer linhagem que não fosse a do rei. Eles eram administradores, espiões, porteiros e, às vezes, carrascos. Eles controlavam quem comia, quem usava joias, quem via o rei e, o mais importante, que informação circulava por aquelas paredes.
Cada mulher que entrava no harém passava por uma preparação cuidadosa. Eram treinadas em artes eróticas, música, dança e conversação refinada. Algumas podiam ganhar influência através da intimidade, mas era um jogo perigoso. A competição era selvagem; um sussurro no momento certo poderia elevar uma mulher ao posto de esposa principal, enquanto um olhar errado poderia significar a morte antes do amanhecer. Este era um mundo de conspirações silenciosas, sorrisos pintados e adagas escondidas dentro de mangas de seda: a prisão perfeita, uma gaiola dourada onde os cativos vestiam os melhores tecidos e provavam as comidas mais ricas, mas perdiam a liberdade para sempre.

E dentro daquela gaiola, uma nova tragédia começou a crescer, algo que os arquitetos do sistema não haviam previsto totalmente. Crianças começaram a nascer dentro desses muros. Quando uma concubina ficava grávida e dava à luz uma menina, o destino daquela criança era selado com seu primeiro choro. Essas filhas, filhas biológicas de Xerxes, cresciam no mesmo labirinto que mantinha suas mães. Eram princesas, mas sem status. Ao contrário das filhas nascidas de rainhas oficiais, elas não eram preparadas para casamentos políticos ou alianças diplomáticas. Elas pairavam em uma zona cinzenta aterrorizante: sangue real em suas veias, mas tratadas como parte da coleção do harém.
Desde a infância, o harém era todo o seu universo. Elas observavam suas mães e centenas de outras mulheres viverem em uma espera interminável, aguardando o chamado do rei. Elas respiravam rivalidade, ciúme e obediência como se fossem oxigênio. Aprenderam a andar, a falar, a baixar os olhos no momento certo, mas, acima de tudo, aprenderam a submissão absoluta. Foram ensinadas que seus corpos não eram delas; seus corpos pertenciam ao império, e o império era o rei. Enquanto elas cresciam naquele mundo selado, o homem que as gerou estava mudando.
Após as derrotas catastróficas de Xerxes contra os gregos, especialmente em Salamina, ele se tornou mais afiado, mais sombrio, mais paranoico. Ele tentara conquistar o mundo exterior e falhara; agora recuava para o interior, determinado a governar como um deus sobre o único lugar que podia controlar completamente: o harém. É aqui que o poder ilimitado apodrece em algo pior. Quando você pode ter qualquer coisa que deseja instantaneamente, o prazer torna-se monótono. Quando as mulheres mais bonitas do império estão sempre esperando para se submeter, a beleza torna-se comum. A submissão perde o seu sabor.
Assim, o poder absoluto para de buscar satisfação; ele começa a buscar a transgressão. Ele precisa de choques mais fortes, de fronteiras mais sombrias para quebrar, apenas para se sentir vivo, apenas para provar que ainda é absoluto. Historiadores gregos como Heródoto registraram os primeiros sinais de alerta. Disseram que Xerxes ficou obcecado pela esposa de seu irmão, Masistes. Quando ela o rejeitou, ele voltou-se para a filha dela, sua própria sobrinha, e forçou-a a um relacionamento. Um padrão estava se formando. As linhagens sanguíneas estavam se confundindo na mente de um homem que se acreditava divino. Para Xerxes, todos eram uma extensão de sua vontade. Ele governava nações, possuía mulheres e, da maneira mais aterrorizante, possuía os filhos que essas mulheres produziam.

À medida que as filhas nascidas no harém atingiam a puberdade, seu status congelado tornava-se uma sentença. Elas não eram casadas, não tinham permissão para sair; eram mantidas por perto para um propósito que ninguém ousava nomear, mas que todos conheciam. Os eunucos sabiam, os servos sabiam, as mães sabiam. Elas estavam horrorizadas em silêncio, mas o silêncio era a única maneira de sobreviver ali. Qualquer um que falasse, qualquer um que sequer sussurrasse, simplesmente desaparecia. A máquina de controle funcionava perfeitamente; existia para proteger os segredos do rei a qualquer custo.
A transgressão não era mais apenas uma ideia; estava se tornando uma prática. O médico e historiador grego Ctésias, que serviu dentro da corte persa e alegou ter acesso aos registros reais, deu pistas sobre até onde essa corrupção chegava. Seu trabalho sobrevive apenas em fragmentos, mas o que resta pinta um palácio mergulhado no colapso moral, onde os tabus mais sombrios não eram exceções, eram rotina. Para as jovens princesas, a coerção não era uma ameaça; era o ar que respiravam. Como poderia uma garota recusar um homem que era, ao mesmo tempo, seu pai, seu rei e seu deus vivo? Ela nascera dentro da gaiola, criada para o prazer do carcereiro. O sistema não apenas permitia; ele ativamente suavizava o caminho. Quando o rei queria uma dessas garotas, os eunucos cuidavam disso como logística: sem moralidade, sem hesitação. Eles a preparavam, vestiam-na e entregavam-na com a mesma calma com que carregariam uma bandeja de vinho. Até a arquitetura ajudava o segredo a respirar: câmaras isoladas ligadas por passagens escondidas significavam que o que acontecia nos quartos privados do rei permanecia invisível para o resto do palácio. As paredes engoliam o som, os corredores bifurcavam-se em sombras, e a verdade era sufocada pela seda e pelo ouro.
O Império Persa continuava a funcionar, suas engrenagens girando com eficiência burocrática, enquanto seu coração era consumido por uma escuridão que nenhum exército poderia derrotar. O Rei dos Reis, em sua busca por sentir-se onipotente, havia transformado sua linhagem sagrada em um ciclo de silêncio e sofrimento. A autoridade ilimitada não buscou apenas o controle sobre as terras, mas o domínio sobre a própria essência da humanidade, quebrando os vínculos mais fundamentais da natureza em nome de um ego que já não conhecia limites. E assim, nas profundezas de Persépolis, a glória da Pérsia tornou-se o véu de uma tragédia doméstica de proporções imperiais, onde o pai e o tirano tornaram-se um só, e as filhas do império tornaram-se as vítimas esquecidas de um poder que perdeu sua bússola moral.
Essa depravação não era apenas um pecado pessoal; era um sintoma da decadência de uma dinastia. Quando o governante se coloca acima de todos os tabus, a própria estrutura que sustenta sua autoridade começa a ruir por dentro. O respeito transformou-se em medo absoluto, e a lealdade tornou-se uma máscara para o ressentimento acumulado. Xerxes I, o homem que fustigou o mar e construiu pontes sobre o Helesponto, acabou prisioneiro de seus próprios desejos sombrios, isolado em um labirinto de sua própria criação, onde a luz da verdade raramente penetrava. A história dele serve como um aviso eterno: o poder sem limites não constrói apenas monumentos, ele cava abismos onde a alma e a família são sacrificadas no altar da vontade absoluta. E enquanto o sol se punha sobre os muros de Susa, as sombras alongavam-se não apenas sobre os jardins, mas sobre o futuro de todo um império que, embora dourado por fora, estava apodrecendo a partir de seu núcleo mais íntimo.










