O que os sacerdotes egípcios faziam às virgens do templo era pior que a morte.

O clique da tranca é final. O ar frio, pesado com natrão e incenso velho, atinge seu rosto nas profundezas do complexo do templo de Karnak, por volta de 1100 a.C. O que os sacerdotes egípcios fizeram com as virgens do templo foi um apagamento sistemático, um destino considerado pior que a morte. Estas mulheres consagradas, juradas ao deus, desapareceram da vista do público. Elas carregavam o anel Shen, uma corda enrolada esculpida em pedra que simbolizava a eternidade, mas os sacerdotes distorceram seu significado. Não era mais uma promessa de vida eterna; era o selo de seu confinamento.

Por que essas mulheres, detentoras de imenso poder sagrado, desapareceram de repente dos registros? E qual era o verdadeiro propósito frio das câmaras escondidas onde foram trancadas? O lugar mais sagrado havia se tornado uma prisão perfeita. A procissão não termina no altar público. Ela continua além do santuário, além do salão de oferendas, até uma fenda estreita na parede de basalto, escondida por uma tapeçaria do além-vida. As mulheres não são conduzidas; elas são arquivadas. O ar fica mais frio e parado. O som de Mênfis, o som do Nilo, desaparece. Há apenas o arrastar de sandálias na pedra polida e o eco metálico de seus próprios hinos.

Elas não são mais conhecidas pelos nomes de suas famílias; são simplesmente Himet Neter, as servas do deus. Suas vestes de linho fino são substituídas por túnicas grosseiras e uniformes. Seus títulos sagrados são retirados, restando apenas sua função. O anel Shen, outrora símbolo de sua alta posição, é substituído por um pequeno amuleto frio, também em forma de laço eterno, mas feito de diorito escuro e pesado. Não é um presente; é um jugo. Seu novo mundo é uma série de câmaras nas profundezas das fundações do templo, existindo nas margens dos pergaminhos arquitetônicos. Esta é a Per Duat, a casa do submundo na terra.

De dia, elas tecem linhos para a estátua do deus e moem minerais para a tinta azul sagrada. À noite, são trancadas em celas de pedra, idênticas e nuas. São alimentadas duas vezes ao dia com pão achatado, tâmaras e água do poço do templo. É uma vida de monotonia absoluta, projetada para apagar a identidade e substituí-la pelo puro ritual. Mas a obediência não é absoluta. Uma mulher, com o nome já desaparecendo, mantém uma contagem. Toda noite, ela usa a unha para marcar a argamassa entre as pedras de sua cela. Ela nota a rotação dos guardas pelo som de seus cajados. Ela guarda um fio de cera da lâmpada ritual, escondendo a pequena esfera no punho. Ela não planeja uma fuga; as paredes têm um quilômetro de espessura. Ela planeja se lembrar.

A misericórdia é entregue pelo próprio sumo sacerdote. Ele as visita não com raiva, mas com um rosto de profunda e fria piedade. Ele fala da corrupção das Duas Terras, de faraós fracos e influência estrangeira. Suas famílias, diz ele, esqueceram a verdadeira piedade. Elas foram trazidas para este núcleo sagrado para serem protegidas, para resguardar sua pureza de um mundo que não as merece mais. Elas não são prisioneiras; são tesouros. E tesouros devem ser mantidos no escuro, sob chave e tranca. O preço dessa proteção divina era simples: o mundo inteiro delas. Elas foram escolhidas para serem santas, mas mantidas para serem silenciosas.

O sumo sacerdote retorna, e a máscara de piedade desaparece, substituída pela superfície fria de quem gerencia um recurso. Ele se coloca diante da fila de mulheres silenciosas. Ele fala não de proteção, mas de equilíbrio. O mundo exterior, explica ele, é o caos. Os deuses estão descontentes. Os próprios rituais que contêm o deserto estão falhando. O templo precisa de mais. A presença delas aqui, afirma ele, é a âncora. Sua pureza e energia consagrada são a única coisa que carrega as estátuas inertes e alimenta os hinos patrocinados pelo Estado. Elas são as baterias ocultas de Karnak.

A condição é finalmente revelada. Não é uma prova de fé, mas uma exigência de submissão. Entreguem sua energia voluntariamente, diz ele. Foquem suas orações não no deus, mas nos ritos que realizamos. Sejam a fonte que exigimos e receberão de volta seus confortos: linhos finos, vinho, frutas. Ele pausa, o olhar percorrendo o grupo. Recusem, e o deus a tomará de qualquer maneira, mas o receptáculo será deixado vazio. É uma ameaça entregue como um fato teológico. O silêncio se estende. Então, a mulher que marca as paredes fala: nós servimos ao deus, não aos sacerdotes.

The Unholy Acts of Egyptian Priests Against Temple Virgins - YouTube

A escalada é imediata, mas fria. Os sacerdotes não usam varas; usam a ausência. Primeiro, a pressão suave desaparece. Não há mais falsos confortos, não há mais visitas. Depois, a privação. As rações são cortadas, o pão é mais seco, as tâmaras são menos. As lâmpadas rituais são removidas uma hora mais cedo a cada noite, até que a escuridão consuma mais da metade do dia. Os teares são retirados. Seu propósito é removido, restando apenas a pedra. Finalmente, o silêncio. Os guardas recebem ordens para não falar. Elas são deixadas sozinhas no frio, com apenas o som da própria respiração e a ressonância abafada dos cânticos do templo lá no alto. Elas estão enterradas vivas.

Isso nunca foi sobre piedade; foi sobre poder. O sacerdócio, vendo sua influência política minguar no crepúsculo da XX Dinastia, ficou desesperado. Os velhos rituais falhavam em produzir resultados e assegurar seu status. As esposas do deus e as virgens consagradas, outrora figuras de imensa autoridade pública e espiritual, tornaram-se uma ameaça e uma solução. Os sacerdotes as trancaram não para proteger sua pureza, mas para colhê-la. Elas não eram oferendas; eram combustível. Este era o preço de sua fé.

Mas os sacerdotes calcularam mal. Acreditaram que, ao tirar o mundo, quebrariam as mulheres. Em vez disso, removeram todas as distrações. O silêncio forçado torna-se um voto compartilhado. A monotonia esmagadora torna-se uma disciplina interna perfeita. A escuridão aguça seus outros sentidos. Elas podem sentir a mudança no incenso do santuário superior e a vibração dos passos dos sacerdotes antes de chegarem. O silêncio pretendido como arma torna-se armadura. Despojadas de tudo, as mulheres descobrem que restou apenas o deus. O deus não está nos rituais vazios dos sacerdotes; ele está na pedra. A prisão forjou-as em algo diferente.

Anos se passam no útero frio de basalto. As mulheres estão mais pálidas, mais magras. O sumo sacerdote morreu há muito tempo, substituído por outro que nunca as visita. Os guardas são novos e entediados; esqueceram por que as mulheres estão ali. Elas são apenas um item no inventário do templo. A mulher que marcava as paredes agora é velha. Uma noite, no silêncio mais profundo, ela percorre as mãos pelos blocos de sua cela. Perto do chão, uma pedra parece diferente. A argamassa ao redor é mais macia. Durante três noites, ela cava com um pedaço de cerâmica quebrada. A pedra finalmente se solta.

Não leva a um túnel; abre-se para um pequeno vazio escuro. Ela alcança o interior e seus dedos tocam algo liso e leve. Ela retira um anel Shen, mas não o de diorito pesado dos sacerdotes. É de faiança azul claro, com o esmalte rachado — um amuleto de uma geração anterior. Alguém esteve ali antes delas. Alguém também fora escondido e tentara cavar. Ela coloca sua própria esfera de cera dura ao lado da peça de faiança. Ela não chora; ela não reza. Ela segura os dois objetos na palma aberta. Pela manhã, quando o primeiro filete de luz atinge o chão, ela mostra às outras. Nenhuma palavra é dita; elas tocam o anel quebrado uma a uma. É um rito sem palavras. Elas não são as primeiras; não serão as últimas.

Esta história oculta teria sido apagada como seus nomes. Por que se apegavam a um símbolo de seu aprisionamento? Os papiros oficiais do templo desse período são impecáveis; os livros de registros batem. Mas a história é mantida na pedra. Em 1907, arqueólogos escavando em Karnak encontraram uma câmara de serviço bloqueada. Não continha ouro ou joias, mas fragmentos de linho grosseiro, dezenas de caroços de tâmaras e algo mais: mais de 40 anéis Shen. Não eram do tipo oficial de diorito; eram rudimentares e feitos à mão, esculpidos em lascas de madeira, pedra-sabão ou moldados na argila do Nilo.

Esta era a verdade oculta. Os sacerdotes lhes deram o símbolo do confinamento; as mulheres adotaram-no como prova de sobrevivência. Elas transformaram a prisão em um ateliê secreto. Usaram restos e lama para recriar o objeto que definia o mundo delas. Não estavam apenas marcando o tempo; estavam criando um testamento. Os sacerdotes pretendiam drená-las, mas as mulheres mantiveram sua própria conta. Nos grandes registros de Karnak, onde deveriam estar os nomes das Himet, o papiro está simplesmente em branco. As entradas param abruptamente por volta de 1100 a.C. Não há registros de morte nem avisos de transferência. Seus nomes não foram apagados; nunca foram escritos.

Séculos depois, historiadores gregos caminharam por esses salões. Perguntaram sobre as velhas histórias das esposas dos deuses que detinham tanto poder. Os sacerdotes ofereceram sorrisos educados. Falaram de metáforas, descrevendo as virgens sagradas como um símbolo poético para a pureza da terra, não como mulheres de carne e pedra. A verdade fora esfregada, rebocada e pintada com um mito mais limpo. Os rústicos anéis Shen feitos à mão foram catalogados como pequenos objetos rituais. Foram arquivados, seu significado perdido — um testamento silencioso confundido com poeira comum.

Começou com o clique da tranca, um som que foi final. No início, era o som da porta da cela; no fim, era o som da caixa de madeira do escriba se fechando. Era o som de uma história sendo selada sob o peso do silêncio oficial. O que o sacerdote fez não foi uma morte rápida e limpa; foi um desenrolar administrativo lento. Foi o roubo de um nome, o roubo da memória e, finalmente, o roubo de seu lugar no mundo. A pedra guarda o que o papiro esquece.