A Viúva e Seus Nove Escravos: O Escândalo que Destruiu uma Dinastia | Ilha da Reunião, 1843

Janeiro de 1843. Nas colinas verdejantes da Ilha Bourbon (atual Reunião), a propriedade Saint-Pierre parece pacífica, quase adormecida no calor tropical. Mas por trás das grossas paredes da grande casa colonial, uma viúva de 34 anos, Catherine de Vallois Beauregard, está prestes a escrever um dos capítulos mais sombrios e escandalosos da história do Oceano Índico. Esta não é uma história de amor, nem uma tragédia romântica. É o relato brutal de vingança, perversão e poder absoluto que, em última análise, consumiu a mulher que pensava controlá-lo.

A Libertação de um Prisioneiro

Para entender o monstro, é preciso primeiro olhar para a vítima. Catarina passou dezoito anos de sua vida sob o jugo de Filipe de Vallois Beauregard, um marido brutal, egoísta e tirânico. Casada aos dezesseis anos, viveu numa gaiola dourada, obrigada a sorrir em eventos sociais enquanto suportava humilhações privadas. Quando a febre amarela ceifou a vida de Filipe em três dias fugazes, Catarina não derramou uma lágrima. Sob o véu negro do luto, seus olhos verdes brilharam com uma nova luz: a luz da liberdade.

Agora, dona exclusiva de 2.000 hectares de plantações de café, 350 escravos e uma fortuna colossal, Catherine toma uma decisão radical. Ela nunca mais será submissa. Melhor ainda, ela inverterá os papéis. Ela quer possuir, controlar e usar os homens como sempre foi usada.

O Harém Secreto da Casa Grande

Três meses após o funeral, Catarina convocou seu administrador com um pedido estranho: queria uma lista. Não uma lista de colheitas ou contas, mas uma lista de homens. Exigia escravos jovens, fortes e bonitos. Após cuidadosa seleção, escolheu nove. Nove homens de nove origens diferentes: Malik de Zanzibar, Koffi da Guiné, Jean-Baptiste da Martinica, Raul da Índia e outros cinco de Madagascar, Senegal, Comores, Moçambique e Egito.

Oficialmente, esses homens são realocados para tarefas domésticas. Extraoficialmente, são alojados em uma ala isolada, transformada em um harém masculino particular. Recebem melhor alimentação, melhores roupas e são poupados do trabalho árduo nos campos, mas o preço que pagam é a sua dignidade. Todas as noites, Catarina convoca um deles. Ela não busca amor; busca dominação. Inflige-lhes a violência psicológica que ela própria sofreu, tratando-os como objetos descartáveis ​​de prazer.

Para Malik, o primeiro “escolhido”, é um pesadelo constante. Homem orgulhoso e inteligente, ele precisa se submeter para sobreviver, aprendendo a antecipar os desejos de sua amante para evitar ser vendido para as mortais plantações de cana-de-açúcar da Ilha Maurício. Uma relação complexa e tóxica se desenvolve, feita de repulsa e uma estranha intimidade forçada.

Os Filhos da Mentira

A ilusão de controle de Catherine começou a ruir em 1845, quando a natureza seguiu seu curso: ela engravidou. Uma barriga crescente não podia mais ser escondida indefinidamente. Com uma audácia assustadora, ela arquitetou uma mentira ousada. No nascimento de sua filha Isabelle, alegou ser um “milagre póstumo”, um último presente de seu falecido marido. A sociedade colonial, polida demais para questionar uma viúva tão rica, fingiu acreditar nela.

Mas os nove homens sabem. Eles se entreolham com desconfiança, procurando semelhanças nas feições do bebê. Quem é o pai? Malik? Koffi? O ciúme toma conta do harém, orquestrado pela própria Catarina, que explora as rivalidades entre eles para consolidar ainda mais seu poder.

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Dois anos depois, o escândalo quase explodiu com o nascimento dos gêmeos Louis e Marie, cuja pele era visivelmente mais escura. Desta vez, o milagre já não bastava. Catarina inventou uma nova história: um casamento secreto com um mercador que desaparecera misteriosamente no mar. Os rumores se espalharam, a Igreja ficou preocupada, mas o medo do poder da família Valois manteve todos em silêncio.

A Arma do Silêncio: O Caderno de Jean-Baptiste

Nas sombras, porém, a verdadeira ameaça crescia. Jean-Baptiste, o crioulo martinicano letrado, jamais aceitou seu destino. Ao contrário dos outros que sucumbiram à resignação ou à loucura, ele observou. Roubou um caderno e começou a escrever.

Noite após noite, ele documenta tudo: as datas, os horários, as intimações, os caprichos, as mentiras. Ele registra friamente a descida de Catherine ao inferno, enquanto ela afunda gradualmente no alcoolismo e na violência paranoica. Este pequeno caderno, escondido sob uma tábua do assoalho, torna-se uma bomba-relógio.

A abolição da escravatura em 1848 deveria ter marcado o fim do pesadelo. Mas Catarina, uma manipuladora nata, aprisionou as suas vítimas com contratos de trabalho injustos, mantendo-as num estado de servidão disfarçado de dívida. O desespero parecia absoluto, até aquela noite de 1849, quando Catarina, embriagada e desolada, confessou a Malik a sua própria angústia. A máscara caiu.

A Queda e o Esquecimento

Pressentindo que o momento era propício, Jean-Baptiste enviou cópias de seu diário ao padre local e ao governador. A verdade crua e documentada veio à tona. As autoridades não podiam mais ignorar o ocorrido. A polícia invadiu a propriedade, libertou os homens e prendeu a “Viúva Negra”.

O julgamento de janeiro de 1850 foi o espetáculo do século. A alta sociedade, que a havia adorado no dia anterior, agora a vaiava. Catarina foi considerada culpada de abuso, fraude e depravação moral. Perdeu tudo: suas terras, sua fortuna, seus filhos declarados ilegítimos e seu nome. Exilada em uma choupana em Saint-Denis, morreu sozinha, doente e rejeitada por todos, um ano depois.

A propriedade de Saint-Pierre, outrora a joia da ilha, está caindo em ruínas, como se amaldiçoada pelas atrocidades que ali ocorreram. Hoje, restam apenas pedras e vegetação exuberante como testemunhas desse passado. Mas a história de Catarina e seus nove escravos permanece como um poderoso alerta sobre a natureza corrosiva do poder.

Jean-Baptiste, por sua vez, usou sua recém-conquistada liberdade para lecionar e publicar suas memórias, garantindo que os nomes de Malik, Koffi, Raul, Thomas, Samuel, André, Pierre e Youssef jamais fossem apagados da história. A justiça foi tardia, certamente, mas foi uma vitória eterna da verdade sobre a mentira.