Por que Jesus teve que ir para o inferno três dias após sua morte?

Por que Jesus teve que ir para o inferno três dias após sua morte?

Por que Jesus teve que descer ao inferno após sua morte? Enquanto olhavam para a cruz, os entes queridos de Jesus sentiram-se esmagados, ansiando para que seu sofrimento cessasse e seu espírito ascendesse ao céu. Mas não foi isso que aconteceu. Por três dias ele se foi. Ninguém sabia onde ele estava, desde aquela sexta-feira sombria em que morreu até o domingo radiante de sua ressurreição. O que exatamente Jesus fez durante esses três dias entre sua morte e ressurreição? Poucos sabem a resposta, mas ela reside oculta nas escrituras.

A Bíblia oferece pistas misteriosas sobre as chaves do inferno, espíritos aprisionados e o domínio da própria morte. Mas o que tudo isso realmente significa? Onde estava Jesus quando seu corpo jazia no túmulo? O próprio Jesus profetizara antes de morrer sobre o que ocorreria durante esses três dias. O Filho do Homem estaria três dias e três noites no coração da terra. O significado exato de coração da terra é um mistério, mas Paulo esclarece. Ele explica que antes de Jesus ressuscitar, ele primeiro desceu às partes inferiores da terra. Essas duas passagens conectadas revelam algo importante: Jesus, após sua morte, não foi imediatamente para o Pai. Jesus desceu a um lugar específico.

Mas esse lugar é realmente o inferno e por que Jesus teve que ir lá? Um versículo misterioso explica que este lugar continha espíritos aprisionados. Cristo, sendo morto na carne, pregou aos espíritos em prisão. A frase espíritos em prisão nos dá uma pista sobre o propósito de Jesus. Mas se você pensa que Jesus foi lá para libertar esses espíritos aprisionados, não é o caso. A resposta é ainda mais surpreendente. Mas para realmente compreendê-la, primeiro devemos explorar o entendimento judaico da época.

Este lugar, o coração da terra, tinha um nome nos tempos antigos. No Antigo Testamento hebraico, era chamado de Sheol. No Novo Testamento, escrito em grego, era conhecido como Hades. Quando a Bíblia se refere ao Sheol ou Hades, nem sempre se refere ao inferno de fogo de tormento eterno que frequentemente imaginamos hoje. No pensamento judaico da época, o Sheol era o lugar de habitação geral dos mortos. As almas de quase todos que morriam iam para lá, tanto justos quanto injustos, aguardando o julgamento final. Certas tradições judaicas acreditavam que esse reino era dividido em áreas separadas: uma para os justos, um lugar de conforto às vezes chamado de seio de Abraão, e outra para os injustos, um lugar de tormento e angústia.

Isso nos ajuda a entender quem eram realmente os espíritos em prisão. Eles não eram demônios como Satanás ou anjos caídos. Eram as almas de seres humanos que haviam morrido antes da vinda de Cristo. Eles estavam aprisionados porque eram mantidos neste reino da morte. Incapazes de sair por conta própria, aguardavam a resolução. Jesus, em espírito, desceu a este reino dos mortos, Hades, um lugar repleto de almas humanas que estavam esperando. E o versículo de Pedro diz que ele foi lá e pregou. O propósito de sua descida não era sofrer punição. Era uma missão, mas não uma missão simples. Foi uma incursão em território inimigo, um reino com um guardião poderoso que se oporia a ele.

O guardião, conforme indicado em Hebreus, é Satanás. Pela sua morte, ele poderia quebrar o poder daquele que detém o poder da morte, isto é, o diabo. A Bíblia nos diz neste versículo que Satanás detém o poder da morte. Isso significa que a autoridade de Satanás não se limitava a tentar os vivos. Seu poder se estendia ao destino das pessoas mesmo após a morte. Ele tinha autoridade sobre este reino e mantinha as almas aprisionadas sob o poder da morte. Ninguém que entrasse ali poderia escapar por sua própria força. Jesus, portanto, desceu a um reino governado por seu maior adversário em um ato de confronto direto.

E aqui é onde aparece outra pista crucial. No livro do Apocalipse, o próprio Jesus ressuscitado declara sua vitória com palavras decisivas: eu estive morto, mas eis que estou vivo para todo o sempre e tenho as chaves da morte e do Hades. Chaves simbolizam autoridade poderosa e controle total. Quem detém as chaves de um lugar tem poder total para abrir e fechar seus portões conforme desejar. Se Satanás anteriormente detinha o império da morte e Jesus agora possui as chaves da morte e do Hades, um confronto deve ter ocorrido durante esses três dias. A descida de Jesus foi então um ato de guerra, uma invasão para destituir Satanás de sua autoridade.

Mas por que Satanás tinha esse poder e por que Jesus decidiu tirá-lo? Para entender por que Jesus teve que arrancar o controle da morte de Satanás, primeiro devemos entender como Satanás o obteve. A origem desse poder remonta ao início, no Jardim do Éden. Quando Adão e Eva desobedeceram a Deus, o erro entrou no mundo. E a Bíblia é muito clara neste ponto: a consequência direta do erro é a morte. O erro entrou no mundo por um homem e a morte pelo erro. E assim a morte veio a todas as pessoas. Satanás, como o tentador original que introduziu o erro, tornou-se aquele que detinha o poder da morte.

Jesus, no entanto, era diferente. Ao contrário dos homens, ele era sem erro. Mas para que sua vitória fosse completa, morrer não era suficiente. O domínio da morte era como uma fortaleza e a única maneira de entrar nessa fortaleza era morrendo. O próprio Jesus afirma isso quando diz: eu dou a minha vida para a retomar. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo. A morte poderia prender os transgressores, mas não alguém íntegro como Jesus. Jesus entra como um conquistador vitorioso. Paulo fala de sua vitória: Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Pois o aguilhão da morte é o erro. Deus nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.

Há um detalhe curioso e muito importante. A Bíblia chama Jesus de as primícias da ressurreição. Isso significa que ele foi o primeiro a derrotar a morte para sempre. E ele é a garantia de que todos os que nele creem também a derrotarão. A vitória de Jesus no Hades foi completa. Ele havia pregado aos espíritos que esperavam no submundo, tomado as chaves da morte e libertado os justos que esperavam. Com isso, a história parece ter chegado ao fim.

Mas Satanás, embora derrotado na batalha decisiva, não se rende. Seu poder sobre a morte eterna fora quebrado, no entanto, sua capacidade de enganar e causar sofrimento no mundo permaneceu intacta. A nova guerra de Satanás não seria nas profundezas da terra, mas em sua superfície, nas mentes dos homens. Seu primeiro movimento aconteceu na própria manhã da ressurreição. O corpo de Jesus não estava mais no túmulo. Sua alma havia retornado vitoriosa do Hades. Satanás não podia mais detê-lo, então sua única defesa foi mentir.

O Evangelho de Mateus conta como os líderes religiosos, em seu desespero, pagaram aos soldados que guardavam o túmulo. Eles ordenaram que espalhassem uma história falsa de que os discípulos de Jesus vieram durante a noite e roubaram o corpo. A estratégia era clara: se as pessoas não acreditassem na ressurreição física, a vitória sobre a morte não teria significado para elas. A conquista do Hades permaneceria um segredo, uma história sem prova. Mas a mentira não foi sua única resposta. Sua derrota também o encheu de fúria.

O livro do Apocalipse descreve Satanás como um grande dragão que, incapaz de destruir Cristo, volta toda a sua fúria contra os seguidores de Jesus. Então o dragão se enfureceu e foi fazer guerra contra os que guardam os mandamentos de Deus e mantêm o testemunho de Jesus. Isso explica o que aconteceu nos anos e séculos seguintes: a intensa perseguição contra os apóstolos e a igreja primitiva. Satanás não podia mais usar a morte como uma prisão final para os crentes, então ele tentou usá-la como uma ferramenta de terror na vida para fazê-los abandonar sua fé. Sua defesa tornou-se um ataque vingativo contra aqueles que agora carregavam a promessa de vida eterna, a própria promessa que ele havia perdido como carcereiro.

Assim, a vitória de Jesus no Hades não trouxe paz imediata à Terra. Pelo contrário, marcou o início de um novo tipo de conflito. É uma guerra pela fé, verdade e perseverança dos crentes. Um conflito que, segundo a Bíblia, continuará até o dia do julgamento, quando o próprio Satanás será julgado e sua derrota será absoluta e eterna. Mas houve outra consequência imediata da vitória sobre o submundo. No momento em que Jesus morreu, os mortos ressuscitaram e emergiram dos túmulos no cemitério de Jerusalém. Mateus confirma isso: os túmulos se abriram e os corpos de muitos santos que haviam morrido foram ressuscitados. Eles saíram dos túmulos após a ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitas pessoas.

A descida de Jesus ao reino da morte não é apenas uma interpretação isolada. Na verdade, foi tão importante que foi incluída em um dos textos mais antigos e respeitados do cristianismo, o Credo dos Apóstolos. O Credo dos Apóstolos não é um livro da Bíblia; é um resumo, uma declaração de fé muito antiga. Sua origem mais remota pode ser rastreada até Roma, por volta do século II. Essas eram as palavras que uma pessoa tinha que declarar publicamente para demonstrar sua fé antes de ser batizada. Seu propósito era claro: definir o essencial da fé de forma breve e direta, e também proteger a igreja de falsos ensinamentos precoces, que muitas vezes negavam que Jesus fosse um homem real que realmente nasceu, sofreu e morreu.

Mas aqui está um detalhe interessante sobre seu nome. É chamado de Credo dos Apóstolos não porque eles o escreveram juntos. Seu nome vem de uma lenda antiga muito popular. Dizia-se que cada um dos doze apóstolos havia contribuído com uma das frases do credo antes de se dispersarem pelo mundo. Embora hoje saibamos que isso não é historicamente exato, o nome permaneceu. Reflete que seu conteúdo é baseado nos ensinamentos fundamentais que os apóstolos transmitiram. Este credo, ainda recitado por milhões de cristãos hoje, conta a história da salvação. E no centro da narrativa, encontramos uma declaração muito clara sobre o que Jesus fez após morrer. O credo afirma: Jesus foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao inferno e no terceiro dia ressurgiu dos mortos.

Mas a frase desceu ao inferno não estava nas versões mais antigas deste credo. Começou a aparecer e tornar-se mais comum em outras declarações de fé a partir do século IV. Com o tempo, houve um aumento nas questões sobre se Jesus realmente detinha as chaves do Hades e ela foi incluída no credo para eliminar dúvidas. Mas o Credo dos Apóstolos não é o único texto antigo que sustenta essa crença. Outros textos cristãos primitivos afirmavam isso de forma ainda mais enfática. Um dos mais importantes é conhecido como o Credo de Atanásio. Este credo é diferente; é quase um manual teológico, uma explicação profunda e precisa das crenças cristãs.

Leva o nome de Santo Atanásio, uma figura chave do século IV. Atanásio foi o bispo de Alexandria e o defensor mais forte da fé cristã contra uma ideia difundida e perigosa de seu tempo: o Arianismo. Este ensinamento afirmava que Jesus não era verdadeiramente Deus no mesmo sentido que o Pai, mas sim um ser criado. Atanásio lutou toda a sua vida para defender a plena divindade de Cristo. É por isso que o credo que leva seu nome é tão importante. Foi formulado como uma defesa poderosa e detalhada contra esses falsos ensinamentos, definindo com clareza total a fé na trindade e na natureza dual de Cristo, tanto divina quanto humana. E neste credo, afirma-se claramente sobre Jesus: sofreu por nossa salvação, desceu ao inferno e no terceiro dia ressurgiu dos mortos.

Há outra história cristã antiga que descreve a descida de Jesus. É um texto antigo muito popular conhecido como o Evangelho de Nicodemos. É considerado apócrifo, mas foi imensamente influente e respeitado durante toda a Idade Média. A segunda parte do Evangelho não diz apenas que Jesus desceu ao Hades; narra com detalhes épicos como isso aconteceu. Esta história descreve como uma grande luz irrompeu na escuridão do reino dos mortos, enchendo Satanás e todo o Hades de pânico. Conta como Jesus, com uma voz como um trovão, ordena que os portões se abram e, quando não obedecem, ele os estilhaça.

O relato descreve Jesus amarrando Satanás e então estendendo a mão para Adão, o primeiro homem. Ele o levanta e o conduz para fora da escuridão. E atrás dele emerge uma grande procissão: todos os patriarcas, profetas e justos do Antigo Testamento que estavam esperando por sua chegada no seio de Abraão. O seio de Abraão era uma seção especial do Hades. A ideia vem de uma parábola que o próprio Jesus contou, aquela sobre o homem rico e o mendigo Lázaro. Na história, o justo Lázaro, ao morrer, é levado por anjos ao seio de Abraão, um lugar de honra e descanso ao lado do grande patriarca. O homem rico, no entanto, está em um lugar de tormento.

Um detalhe curioso que a parábola menciona é que um grande abismo separava os dois lugares. Ninguém podia passar de um lado para o outro. Os justos estavam seguros e em paz, mas permaneciam no reino dos mortos. Eles estavam esperando. E neste lugar de espera, não havia estranhos. As grandes figuras de toda a história de Israel estavam lá: Adão, Noé, Abraão, Isaque e Jacó, o rei Davi, o profeta Isaías, João Batista e todos os santos e profetas que morreram confiando nas promessas de Deus. Eles viveram e morreram em fé. Mas a porta final para o céu ainda não estava aberta. Eles esperaram, alguns por séculos, pela chegada do Messias, o libertador prometido que finalmente os conduziria para fora.

Mas algo aconteceu na cruz que parece contradizer tudo o que dissemos até agora. Este é um dos argumentos que especialistas usam para contestar que Jesus desceu ao Hades. Um dos ladrões crucificados ao lado de Jesus arrependeu-se antes de morrer. Jesus fez-lhe uma promessa incrível: em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso. Isso levanta uma questão importante: se o espírito de Jesus desceu ao Hades, como ele poderia estar no paraíso com o ladrão naquele mesmo dia? A chave reside no fato de que, para o pensamento judaico daquela época, a palavra paraíso também era usada para se referir ao seio de Abraão. Isto é, a seção pacífica dentro do Hades onde os justos esperavam.

Era um paraíso comparado à zona de tormento, um oásis de paz no meio do domínio da morte. Jesus prometeu ao ladrão que suas almas se encontrariam naquele mesmo dia no lugar de paz para os mortos justos. E a razão é porque Jesus estava prestes a descer para triunfar sobre o Hades. Há também um detalhe intrigante quanto à tradução deste versículo. Os manuscritos gregos mais antigos da Bíblia não continham vírgulas ou sinais de pontuação, pois estes foram introduzidos por tradutores séculos depois. Alguns sugerem que a frase poderia ser lida de forma diferente: Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso. Nesta interpretação, hoje é o dia em que Jesus faz a promessa, não necessariamente o dia em que ela é cumprida. Embora esta não seja a interpretação mais aceita, mostra como um pequeno detalhe pode abrir novos caminhos de compreensão.

A vitória de Jesus no Hades e sua ressurreição marcaram um ponto de virada. Com as chaves em seu poder, Jesus tornou-se o Senhor do reino dos mortos. Com as chaves, você pode abrir e fechar celas à vontade, como Jesus fez para libertar os justos. No entanto, isso não significa que a prisão foi demolida. A estrutura da morte e do Hades como conceitos ainda existia após a ressurreição de Cristo. Sua destruição final, segundo a Bíblia, foi reservada para o fim dos tempos. O livro do Apocalipse descreve isso muito claramente. Fala de um julgamento final para toda a humanidade, conhecido como o julgamento do grande trono branco.

Diante deste trono, todos os mortos, grandes e pequenos, de todas as eras, são chamados a se apresentarem para serem julgados. E aqui a morte e o Hades desempenham seu último e definitivo papel. O texto diz: O mar entregou os mortos que nele havia, e a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia; e cada um foi julgado de acordo com o que tinha feito. Neste momento, a morte e o Hades não são mais carcereiros. Eles são forçados a libertar absolutamente todos os seus prisioneiros para enfrentar o veredito final de Deus. Seu propósito terminou. Uma vez que entregaram seus últimos cativos, o destino da morte e do Hades está selado. Eles não têm mais razão de existir. Eles são os últimos inimigos a serem conquistados. O Apocalipse narra isso com uma imagem poderosa e definitiva: Então a morte e o Hades foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte.

Este é o fim da história. A própria morte é destruída. Ela é lançada no que a Bíblia chama de segunda morte, um estado de aniquilação e separação final de Deus. O próprio conceito de morrer é erradicado da nova criação. A vitória de Jesus foi um plano de várias fases. Seu aguilhão, o erro, foi removido na cruz. Suas chaves, autoridade, foram tomadas durante sua descida e ressurreição. E sua própria existência será finalmente apagada no julgamento final. Assim, no novo céu e na nova terra que Deus promete, a morte não existirá mais.

A vitória de Jesus no Hades e a libertação dos justos parecem completar sua missão no inferno. Mas seriam as almas humanas os únicos prisioneiros no submundo? A Bíblia sugere que havia outros cativos, alguns muito mais antigos e poderosos que os humanos. Outras cartas do Novo Testamento, como Judas e Segunda Pedro, falam disso de forma muito direta. Mencionam anjos que não mantiveram sua posição de autoridade, mas abandonaram sua própria morada. O texto diz: Deus os mantém em trevas, presos com correntes eternas para o julgamento do grande dia. A segunda carta de Pedro acrescenta que Deus os enviou ao inferno, colocando-os em correntes de trevas para serem guardados para o julgamento.

Estes não são espíritos humanos. São anjos de uma rebelião celestial muito anterior. E não estão em uma sala de espera como o seio de Abraão; estão aprisionados aguardando sua condenação final. Quando Jesus entrou no Hades, ele não trouxe apenas luz ao seio de Abraão. Sua presença vitoriosa também teria levado sua autoridade a essas prisões de trevas. Não para oferecer-lhes perdão, pois seu julgamento já estava fixado desde sua rebelião, mas para anunciar algo terrível para eles: que seu líder, Satanás, acabara de ser derrotado. Existem algumas profecias em livros mais antigos que falam sobre este evento.

Os primeiros cristãos viram este evento como o cumprimento direto de profecias antigas. A mais importante encontra-se no Antigo Testamento, no Salmo 16. Ali, o rei Davi, falando profeticamente, diz a Deus: Porque não me abandonarás no reino dos mortos, nem permitirás que o teu santo veja corrupção. Séculos depois, no dia de Pentecostes, logo após a ascensão de Jesus, o apóstolo Pedro usou este mesmo versículo no primeiro sermão público da história da igreja. Sua lógica era poderosa. Pedro lembrou à multidão que o rei Davi, o autor do salmo, de fato morrera. Portanto, Davi não poderia estar falando de si mesmo. Como profeta, ele falava sobre o futuro Messias. Profetizava que a alma do Cristo não seria abandonada no Hades e que seu corpo não se decomporia porque ele ressuscitaria. Pedro concluiu que Jesus de Nazaré era esse Messias. Sua ressurreição foi a prova de que essa profecia fora cumprida.

Outros textos descrevem o que aconteceu ali como um confronto direto e uma vitória esmagadora. O apóstolo Paulo, em sua carta aos Colossenses, usa uma linguagem militar muito gráfica. Ele descreve a vitória de Cristo desta maneira: E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente à vergonha, triunfando sobre eles na cruz. Os principados e potestades são as fileiras de poderes demoníacos, o exército de Satanás. Paulo diz que Cristo os despojou, uma palavra que significa desarmar um soldado inimigo, retirando suas armas e armadura. E ele não apenas os desarmou, ele os expôs publicamente à vergonha. Isso evoca a imagem de um triunfo romano, um costume onde um general vitorioso desfilava pelas ruas de Roma exibindo seus inimigos derrotados e humilhados diante de todo o povo. Paulo está dizendo que Cristo fez exatamente isso. Ele humilhou publicamente as forças espirituais do mal, mostrando a toda a criação que elas haviam sido conquistadas.

E após derrotar o inimigo e tomar as chaves, o rei vitorioso liberta os cativos. Paulo também descreve este momento em sua carta aos Efésios. Citando outro salmo, ele diz de Jesus: Quando ele subiu ao alto, levou cativo o cativeiro. A história da descida de Jesus narrada em textos antigos parece clara. No entanto, ao longo dos séculos, os cristãos refletiram profundamente sobre o significado exato deste evento. Nem todos o interpretam da mesma maneira. As principais diferenças encontram-se entre a visão das igrejas mais antigas, como a Católica e a Ortodoxa, e a de muitas igrejas que surgiram da Reforma Protestante.

Para as igrejas Católica e Ortodoxa, a descida foi um evento literal e triunfante. Cristo, em sua alma unida à sua divindade, desceu ao inferno ou Hades, mas não para sofrer. Seu sofrimento já havia terminado na cruz. Ele desceu como um conquistador, uma luz nas trevas. Mas muitos teólogos protestantes viram isso de forma diferente. Para eles, a frase no credo desceu ao inferno não descreve necessariamente uma jornada a um lugar após a morte. Eles a veem como uma metáfora poderosa, uma forma de descrever o imenso sofrimento espiritual que Jesus suportou na cruz. Segundo esta visão, o verdadeiro inferno para Jesus foi experimentar todo o peso do erro da humanidade e o abandono de Deus Pai, um tormento da alma muito pior do que qualquer dor física. Assim, para esta perspectiva, a vitória foi totalmente alcançada na cruz.

Esta crença profunda na descida não permaneceu apenas em livros ou debates. Tornou-se o coração da celebração mais importante do ano cristão: a Vigília Pascal, a noite em que se celebra a ressurreição. O dia entre a crucificação ou Sexta-Feira Santa e a ressurreição ou Domingo de Páscoa é conhecido como Sábado Santo. Liturgicamente, é um dia de profundo silêncio, quietude e espera. A igreja medita no corpo de Cristo descansando no túmulo e, simultaneamente, em sua misteriosa missão ativa no reino da morte. É o dia em que o rei está na fortaleza do inimigo, realizando sua obra de libertação.

Esta meditação é especialmente visível e poética na tradição da Igreja Ortodoxa. Durante os serviços de Sexta-Feira Santa e Sábado Santo, hinos muito antigos são cantados. Essas canções descrevem a cena de formas dramáticas e comoventes. Frequentemente, são apresentadas como um diálogo: o Hades, personificado como o guardião da morte, grita de terror ao ver uma luz que nunca antes entrara em seu domínio sombrio. Ele lamenta porque aquele que pensava ter devorado é, na realidade, o criador da vida que veio para destruir seu reino. É a narrativa poética da conquista do inferno cantada pelos fiéis. Assim, embora os detalhes da interpretação teológica possam variar, a crença central permanece. Dos credos antigos aos hinos cantados hoje, a fé cristã afirma que a morte de Jesus não foi um fim passivo. Foi o início de uma missão vitoriosa nas profundezas, cujo triunfo celebramos todos os anos à luz da ressurreição.

Toda esta história de anjos, chaves e reinos não é apenas uma teologia complexa do passado. Ela tem implicações diretas e profundas para nossas vidas hoje. Ensina-nos algo crucial sobre a ressurreição. A manhã de Páscoa, quando o túmulo vazio foi descoberto, não foi o início do triunfo de Jesus. Foi a manifestação pública, a consequência visível de uma batalha já vencida nas profundezas do reino espiritual. Assim como Deus trabalha quando não o vemos, Jesus fez o mesmo. E esta vitória muda completamente nossa relação com a morte.

Graças a esta missão, os crentes não precisam mais temer a morte como um fim sombrio ou um salto no desconhecido. Se Jesus detém as chaves, significa que a porta da morte não é mais controlada por um inimigo. É controlada pelo nosso salvador. Portanto, a morte não é mais uma parede intransponível. Tornou-se um corredor, uma simples passagem desta vida para a próxima, para a presença imediata de Cristo. Este ato de conquista e libertação é também o motivo pelo qual temos acesso direto a Deus. Os portões do Hades foram quebrados. As barreiras que nos separavam foram removidas.

Muitas pessoas compartilham como o entendimento desses três dias transformou sua visão da vida. Elas pararam de ver funerais e a morte como um adeus trágico e final. Começaram a vê-los como um até logo. Compreenderam que o paraíso, o lugar da presença de Deus, está agora aberto e habitado por todos os justos que partiram em fé. E está aberto porque Cristo desceu primeiro para preparar o caminho. No fim, a história da descida ao inferno mostra-nos a profundidade incrível do amor de Deus. Demonstra um amor que não estava apenas disposto a morrer por nós em uma cruz, mas que também desceu às profundezas mais sombrias. Se essas passagens chamaram sua atenção, prepare-se. O que você acabou de assistir é apenas o começo da história de Satanás e da morte. Embora Satanás tenha perdido seu controle sobre a morte, ele ainda percorre a terra e continuará a fazê-lo até que Cristo retorne. Por que Deus o deixa ficar todo esse tempo? Você descobrirá no próximo vídeo.