Por que discutir com seu marido pode te levar à tortura

Em 1655, Margaret Fairfax estava na praça da cidade de Chester, onde uma gaiola de ferro foi trancada em sua cabeça. Pontas de metal pressionavam sua língua, causando sangramento; ela não podia falar nem gritar. Seu erro foi discutir com o marido sobre dinheiro. O que é mais assustador é que isso não era considerado um crime, mas sim uma correção legal ordenada pelo tribunal e aprovada pela igreja. A tortura de Margaret era vista como algo leve.
Existem três métodos de punição que eram perfeitamente legais para esposas consideradas desobedientes. Ferreiros vendiam dispositivos de tortura ao lado de ferraduras, e padres abençoavam instrumentos de sofrimento. Um desses métodos permaneceu legal em partes da América até 1993. Isso não é apenas o passado, é um alerta sobre como a lei tratava as mulheres.
Entre os anos 1200 e o início dos anos 1900, existia uma lei chamada de cobertura. No momento do casamento, a identidade jurídica da mulher desaparecia. Ela não podia possuir propriedades, assinar contratos ou reivindicar seus próprios filhos. Juridicamente, a mulher era uma extensão do marido, sua propriedade e responsabilidade de correção. William Blackstone escreveu em 1765 que marido e mulher eram uma só pessoa perante a lei, o que significava que a existência legal da mulher era suspensa durante o casamento. Essas leis governaram a América, França, Alemanha e Espanha, formando a estrutura sistemática da civilização ocidental. Quando uma propriedade se comportava mal, era disciplinada até funcionar corretamente de novo.
A primeira punição para ofensas menores, como falar demais ou criticar o marido, era o freio da megera. Se uma mulher reclamasse de gastos ou falasse alto, o marido a levava ao magistrado sob a acusação de ser uma mulher briguenta. O dispositivo era uma gaiola de ferro com uma placa frontal e uma peça de metal com espinhos inserida na boca, pressionando a língua. Era impossível falar sem se ferir. A mulher era exibida publicamente por horas ou dias enquanto a vizinhança zombava. A humilhação era o objetivo principal. Esse método só se tornou ilegal na Inglaterra em 1824, mas há evidências de seu uso até a década de 1850.
Outro método era o banco de imersão, que funcionava como um dispositivo de afogamento controlado. Era uma cadeira montada em uma viga de madeira longa sobre um pivô à beira de um rio. A mulher era amarrada e mergulhada repetidamente na água gelada. Os registros judiciais especificavam o número exato de imersões, às vezes chegando a vinte. Em 1769, uma mulher de 62 anos chamada Jenny Pipes recebeu doze imersões por fofocar sobre um vizinho. Isso ocorria frequentemente no inverno, levando à hipotermia ou morte por pneumonia, mas a lei considerava isso apenas uma correção. O mecanismo de Kingston upon Thames ainda está preservado como uma curiosidade histórica.
Além das sentenças legais, havia o direito do marido à violência física. A expressão regra do polegar tem uma origem sombria ligada ao padrão legal de violência aceitável. O espancamento de esposas era explicitamente legal sob a lei comum inglesa e americana por séculos. Blackstone afirmou que o marido tinha poder sobre a esposa e podia usar a força para mantê-la no dever, desde que não fosse de maneira cruel. A definição de não cruel era que o bastão usado não poderia ser mais grosso que o polegar do marido. Em 1824, o Supremo Tribunal do Mississippi decidiu que o marido tinha permissão para usar correção moderada e que o tribunal não interferiria em questões domésticas triviais.
Essas interpretações foram citadas em tribunais americanos até o século XX. Mesmo quando o espancamento se tornou tecnicamente ilegal, a aplicação da lei era falha. Manuais de treinamento policial de 1968 instruíam os oficiais a não intervir em questões domésticas, a menos que houvesse ferimentos graves, afirmando que o marido tinha o direito de disciplinar a esposa.
O ponto que conecta isso diretamente ao mundo atual é a questão do abuso marital, que permaneceu legal em partes da América até 1993. Naquele ano, a Carolina do Norte foi o último estado a criminalizar tal ato dentro do casamento. Antes disso, acreditava-se que o casamento criava um consentimento implícito que não podia ser revogado. Legisladores argumentavam que mudar essa lei destruiria a santidade do matrimônio. No Reino Unido, a criminalização total só ocorreu em 1991.
Levou cerca de 700 anos para que a lei reconhecesse que as mulheres são seres humanos que não podem ser torturadas ou agredidas simplesmente por serem casadas. O legado dessas leis ainda sobrevive na ideia de que o que acontece em um casamento é privado e que as mulheres devem permanecer quietas. As ferramentas físicas sumiram, mas o pensamento de que a mulher é propriedade demora a desaparecer. Conhecer essa história é entender que o passado não está tão distante e que a luta pelo reconhecimento da humanidade das mulheres continua.
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