O Rei Que Apodreceu Vivo e Foi Devorado por Vermes

O Rei Que Apodreceu Vivo e Foi Devorado por Vermes

E se os seus momentos finais se estendessem não por horas, mas por cinquenta e três dias de uma agonia inimaginável? E se, como o monarca mais poderoso do mundo, você fosse forçado a ver o seu próprio corpo se decompor ainda em vida, com sua carne consumida por vermes enquanto cortesãos sussurravam orações do lado de fora de seu quarto? Isso não é ficção, nem uma lenda medieval; este é o registro documentado da morte de Filipe II da Espanha, o homem que um dia comandou um império onde o sol nunca se punha, reduzido a um receptáculo apodrecido de sofrimento que assombraria os anais da história médica para sempre.

No verão de mil quinhentos e noventa e oito, dentro das paredes austeras do Palácio de El Escorial, um odor começou a permear os corredores. Não era o cheiro de decomposição vindo de algum canto esquecido, mas a putrefação viva de um rei. Filipe II, governante da Espanha, Portugal, Países Baixos, vastos territórios nas Américas e nas Filipinas, jazia moribundo de uma maneira tão grotesca que até médicos experientes recuavam. Seu corpo havia se tornado um campo de batalha onde vermes travavam guerra contra a carne real, e o rei permaneceu consciente durante quase todos os momentos excruciantes. Esta é a história de como o poder absoluto encontrou a mortalidade absoluta; como um homem que controlava continentes não pôde controlar a corrupção de seu próprio corpo; como a fé, o orgulho e a medicina medieval conspiraram para prolongar o sofrimento além da compreensão humana.

Filipe II da Espanha nasceu em mil quinhentos e vinte e sete, na dinastia mais poderosa que a Europa já conhecera. Seu pai, Carlos V, governou o Sacro Império Romano, e Filipe herdou um império tão vasto que se dizia que o sol nunca se punha nos territórios espanhóis. Ele controlava a Espanha, os Países Baixos espanhóis, partes da Itália, as Filipinas e vastas extensões das Américas, de onde ouro e prata fluíam para os cofres espanhóis em fluxos aparentemente infinitos. Ele era o campeão da Europa Católica e o arquiteto da Armada Espanhola.

No entanto, um poder dessa magnitude trazia uma responsabilidade esmagadora. Filipe gerenciava seu império nos mínimos detalhes a partir de uma mesa em El Escorial, lendo e assinando pessoalmente milhares de documentos. Ele confiava em poucos e delegava menos ainda. O peso do império o pressionava física e psicologicamente. Dormia pouco, alimentava-se mal e passava horas por dia em orações e burocracia. Seu estilo de vida era extremamente sedentário, fato que teria consequências catastróficas para sua saúde. Ao final dos seus sessenta anos, seu corpo começou a se rebelar. Ele sofria de gota, uma condição dolorosa causada por cristais de ácido úrico nas articulações, especialmente excruciante nos pés e nas mãos.

Na primavera de mil quinhentos e noventa e oito, Filipe desenvolveu o que os médicos inicialmente diagnosticaram como febre terça, provavelmente malária. Ele também sofria de hidropisia, o termo antigo para edema, uma retenção massiva de líquidos que fazia suas pernas e abdômen incharem de forma grotesca. Mas essas condições empalideciam diante do que surgiu a seguir. Feridas começaram a aparecer em seu corpo. A princípio, pareciam escaras de decúbito, consequências infelizes de sua imobilidade, já que o rei estava acamado há meses. No entanto, essas feridas se recusavam a cicatrizar. Em vez disso, tornaram-se maiores, mais profundas e mais numerosas. Os médicos aplicaram os tratamentos padrão da época, como compressas de ervas e orações, mas nada funcionou.

Foi no final de julho de mil quinhentos e noventa e oito que o verdadeiro horror começou. O cheiro veio primeiro, um odor adocicado e podre que nenhum incenso conseguia mascarar. Então, algo que parecia impossível aconteceu: os médicos notaram movimento nas feridas do rei. Não era o pulso do sangue, mas o movimento deliberado de larvas e vermes. O rei da Espanha, o defensor do catolicismo, tornara-se hospedeiro de criaturas que se alimentam de carniça. Seu corpo, ainda vivo e consciente, tornara-se o solo de alimentação delas. A equipe médica, sem compreensão sobre infecções ou bactérias, tentou de tudo: trocaram curativos constantemente e aplicaram substâncias cáusticas, mas para cada verme removido, outros apareciam.

Historiadores médicos modernos sugerem que Filipe provavelmente sofria de diabetes severa, o que explicaria a má cicatrização, o edema e as infecções. No verão quente, com saneamento limitado, essas feridas atraíam moscas que depositavam ovos no tecido necrótico. O verdadeiro sofrimento vinha das infecções, da febre e da toxicidade sistêmica de um corpo se envenenando lentamente. Relatos da época descrevem que as costas do rei se tornaram uma única e enorme ferida supurante, com a carne apodrecendo até que os ossos da coluna ficassem visíveis. O mau cheiro era tão avassalador que os servos precisavam se revezar frequentemente.

Filipe via seu sofrimento como um teste de Deus ou uma penitência pelos seus pecados. Ele pedia que monges lessem textos religiosos constantemente e que relíquias sagradas fossem trazidas ao seu leito. Enquanto isso, o império esperava por notícias de sua morte, mas ela demorava a chegar. Embaixadores escreviam que o rei deveria ter morrido em poucos dias, mas ele persistia, preso em um corpo simultaneamente vivo e morto. No auge do sofrimento, ele mantinha a clareza mental, assinando documentos e dando instruções para seu sucessor, o que era talvez o aspecto mais cruel de sua condição: estar plenamente consciente de sua própria decomposição.

Após cinquenta e três dias de uma provação documentada, em treze de setembro de mil quinhentos e noventa e oito, Filipe II finalmente faleceu. O estado do cadáver era tão terrível que os procedimentos normais de embalsamamento foram impossíveis. O corpo foi lavado, envolto em múltiplas camadas de pano embebidas em conservantes e selado rapidamente em um caixão, sem velório público. Ele foi enterrado no Panteão Real de El Escorial. Sua morte marcou o fim de uma era e permanece como um lembrete universal da mortalidade humana, mostrando que, independentemente do poder terreno, somos todos vulneráveis às falhas da carne e à inevitabilidade do fim.