O que os homens santos fizeram às freiras cristãs foi mais cruel do que a morte.

O que os homens santos fizeram às freiras cristãs foi mais cruel do que a morte.

Em 1619, a irmã Benedetta Carlini gritou pela terceira noite consecutiva dentro de sua cela trancada em Pescia, na Itália. O padre que conduzia seu exame espiritual disse às outras freiras que demônios estavam sendo expulsos, mas essa não é sequer a pior parte. O que vou apresentar não é ficção, nem folclore exagerado; são fatos documentados dos arquivos do Vaticano que ficaram selados por mais de 700 anos e só foram totalmente abertos a pesquisadores em 2020. O que os historiadores encontraram nesses registros é tão perturbador que três documentários separados sobre este tópico foram impedidos de ter uma distribuição ampla. Ao final deste relato, você entenderá exatamente por que a Igreja Católica lutou tanto para enterrar esta história. Você conhecerá os documentos reais, os testemunhos e aprenderá sobre a mulher corajosa que expôs tudo e pagou por isso com a própria vida.

Prometo três revelações importantes: primeiro, mostrarei como os exorcismos forçados eram, na verdade, câmaras de tortura projetadas para abusos sistemáticos; segundo, revelarei por que a Igreja manteve esses registros ocultos por sete séculos; e terceiro, você conhecerá a freira que documentou tudo e morreu misteriosamente aos 43 anos, após ter seus manuscritos queimados. Embora este conteúdo seja denso, o que foi encontrado nesses documentos de 700 anos mudará para sempre a forma como você vê a história religiosa. Se estiver pronto para mergulhar em um dos encobrimentos mais sombrios da história, continue lendo, pois este é o início de uma série que expõe o que realmente acontecia por trás das paredes dos monastérios.

Vamos começar com algo que provavelmente nunca foi ensinado nas aulas de história. Entre os séculos XIII e XVII, os conventos europeus não eram refúgios espirituais, mas sim prisões. Imagine ser uma jovem de 14 anos na Florença do século XV. Seu pai tem três filhas e um filho, mas só pode pagar um dote, que será para sua irmã mais velha. Você e sua irmã mais nova serão enviadas ao convento. Não há escolha nem apelação; a Igreja e sua família decidiram seu destino. Os números são impressionantes: entre 50% e 70% das filhas da nobreza italiana eram forçadas a entrar em conventos, não por vocação religiosa, mas porque suas famílias não tinham como casá-las e os herdeiros homens eram considerados mais valiosos. Essas não eram mulheres em busca de iluminação, mas filhas indesejadas, viúvas inconvenientes e mulheres que as famílias precisavam que desaparecessem. O sistema de conventos era um depósito para mulheres consideradas problemáticas.

Aqui o cenário se torna mais obscuro. A Igreja Católica estabeleceu os chamados direitos de visitação. Isso significava que bispos, padres e outros membros do clero masculino tinham acesso ilimitado para inspecionar os conventos. Eles podiam entrar a qualquer momento, exigir reuniões privadas com qualquer freira e realizar exames espirituais a portas fechadas, sem supervisão ou responsabilidade. Essas mulheres, trancadas e isoladas de suas famílias, estavam completamente à mercê desses homens. A primeira revelação chocante começa no confessionário, e o que acontecia ali estava longe de ser sagrado.

O ritual da confissão parece simples: confessar pecados e receber a absolvição. No entanto, para freiras presas em conventos medievais, a confissão tornou-se um terreno fértil para abusos. Toda semana, uma freira era obrigada a confessar a um padre, em total privacidade, cada pensamento considerado impuro ou desejo corporal, em detalhes explícitos. No caso da irmã Benedetta Carlini, em 1619, os arquivos da Inquisição revelam que as investigações do clero não se limitavam a perguntas. Eles conduziam exames espirituais que incluíam inspeções físicas para determinar se ela estava possuída ou se era apenas pecaminosa. Documentos descrevem padres realizando toques físicos repetidamente em salas trancadas. Quando as freiras relatavam experiências místicas, isso dava ao clero a desculpa perfeita para conduzir investigações íntimas sob o pretexto de verificar possessões demoníacas. Se uma freira resistisse, a punição era brutal: isolamento, fome e o rótulo de estar habitada por demônios, o que justificava tratamentos ainda mais invasivos.

O caso da irmã Benedetta durou dois anos e, ao final, a Inquisição concluiu que ela fora visitada tanto por entidades divinas quanto por demônios, um veredito conveniente para manter o controle sobre ela. Mas o abuso na confissão era apenas o começo. Em 1634, na cidade francesa de Loudun, ocorreu um evento que exporia a escala real do que acontecia nos conventos da Europa. O que começou com 17 freiras relatando ataques demoníacos tornou-se um ciclo de agressões sistemáticas disfarçadas de exorcismo. Registros oficiais detalham o uso de nudez forçada, restrições e buscas invasivas em partes íntimas dos corpos das mulheres. O horror aumentava com exorcismos públicos realizados diante de multidões.

Três métodos principais eram utilizados: primeiro, a contaminação do vinho ou pão com fungos que causavam alucinações, justificando a escalada dos rituais. Segundo, a privação de sono por dias ou semanas, o que naturalmente induzia alucinações e enfraquecia a resistência das mulheres. O terceiro método envolvia o toque direto dos padres em áreas do corpo onde alegavam que os demônios haviam entrado. Registros judiciais são explícitos sobre esses atos que hoje seriam classificados como tortura e agressão. Um padre, Urbain Grandier, tentou expor que as possessões eram falsas e que as freiras estavam sendo drogadas, mas foi preso, acusado de bruxaria e queimado vivo em 1634. A mensagem era clara: quem interferisse no trabalho da Igreja pagaria com a vida.

Evidências sugerem que esses procedimentos ocorreram em centenas de conventos na França, Itália, Espanha e Áustria. Sister Archangela Tarabotti dedicou sua vida a documentar esses detalhes. Em 1654, ela publicou um manifesto intitulado Tirania Paterna, que a Igreja proibiu imediatamente. Seus escritos, recuperados séculos depois, descreviam visitas noturnas de monges com chaves mestras e freiras que engravidavam em segredo. Ela escreveu sobre o destino trágico desses bebês, cujos restos eram ocultados. Por séculos, historiadores consideraram esses relatos como exageros, até que, em 2017, escavações em um antigo convento na Irlanda revelaram esqueletos de centenas de bebês em sistemas de esgoto, confirmando as denúncias de séculos atrás.

Sister Archangela morreu misteriosamente aos 43 anos e a Igreja tentou apagar sua existência queimando seus manuscritos. Somente nas últimas décadas historiadores conseguiram reunir sua história através de fragmentos escondidos. O mais perturbador é que esse sistema de isolamento e abuso continuou até tempos recentes, como nas lavanderias de Magdalene na Irlanda, que funcionaram até 1996. Milhares de mulheres foram encarceradas por serem consideradas “caídas”, enfrentando trabalhos forçados e abusos idênticos aos relatados na era medieval. Em 2013, o governo irlandês e as Nações Unidas documentaram esses abusos sistêmicos.

Embora a Igreja tenha feito acordos financeiros com sobreviventes, nunca houve uma admissão plena de culpa ou a abertura total dos arquivos selados no Vaticano. Estima-se que existam milhares de casos documentados ainda ocultos. Este relato não é apenas sobre história antiga; é sobre um sistema secular de controle e abuso de poder oculto sob o manto da santidade. O padrão de isolar, controlar, abusar e silenciar é consistente através dos séculos. É um lembrete de que instituições que operam sem transparência tendem a proteger a si mesmas em vez de proteger as pessoas sob seus cuidados. A história da irmã Archangela e de tantas outras importa porque o apagamento da verdade é uma ferramenta de poder. Agora que temos os nomes e os fatos, é nosso dever garantir que essas histórias nunca mais sejam enterradas.