O que o rei Xerxes fez às suas filhas foi pior que a morte.

O que o rei Xerxes fez às suas filhas foi pior que a morte.

Em 465 a.C., uma mulher foi arrastada para o pátio do palácio mais magnífico da Terra. O que aconteceu a seguir foi tão brutal que até os soldados endurecidos que testemunharam o ato não conseguiam falar sobre o assunto sem tremer. O crime dela foi dizer não ao homem errado. Mas o que torna essa história verdadeiramente aterrorizante não foi um incidente isolado; foi apenas um dia na corte real persa, um crime em um padrão de décadas que transformou o palácio mais bonito do mundo em uma câmara de tortura psicológica.

O homem responsável é conhecido na história. Você viu seus exércitos em filmes, mas talvez não saiba quem ele realmente era. A história quer que você se lembre do Rei Xerxes I da Pérsia como um guerreiro, o homem que liderou milhões contra a Grécia e o construtor de monumentos que desafiavam a imaginação. Essa é a narrativa fácil de digerir. No entanto, por trás daquelas muralhas douradas, uma guerra diferente estava sendo travada: uma sem espadas ou escudos, onde as vítimas não podiam correr, lutar ou falar sua verdade sem arriscar tudo o que amavam.

E se a maior atrocidade do reinado de Xerxes não tivesse nada a ver com a Grécia? E se estivesse acontecendo sob seu próprio teto, todos os dias, com as pessoas que deveriam estar mais seguras em sua presença? O que você está prestes a aprender mudará sua percepção sobre a antiga Pérsia. Entenderemos por que essa história foi enterrada por mais de 2.000 anos.

Uma questão que os historiadores raramente fazem é: o que acontece com um ser humano quando todos ao seu redor insistem que ele não é humano? Em outubro de 486 a.C., na sala do trono de Persépolis, um homem de 36 anos chamado Xerxes recebeu a coroa do maior império que o mundo já viu. Seu pai, Dario, o Grande, estava morto e, a partir daquele momento, Xerxes nunca mais experimentaria uma interação humana genuína. Cada pessoa que se aproximava dele devia seguir um ritual elaborado chamado proskynesis, prostrando-se completamente no chão, como se estivesse diante de uma divindade. Ninguém podia lhe dar as costas, olhar diretamente em seus olhos ou falar sem ser solicitado.

O historiador grego Heródoto registrou que, para abordar o rei com notícias urgentes, era necessário esperar do lado fora da sala do trono por dias ou semanas. Mesmo que o império estivesse queimando, era preciso esperar, pois perturbar o “deus-rei” no momento errado poderia custar a vida. Xerxes não nasceu acreditando ser divino; ele foi sistematicamente condicionado a isso. Sua mãe, Atossa, compreendia o poder melhor do que ninguém. Ela viu sua própria família se destruir em guerras de sucessão e sabia que, na corte persa, a família não era uma fonte de amor, mas a ameaça mais perigosa. Ela ensinou ao filho: não confie em nada, controle tudo e não mostre fraqueza.

Diferente do que Hollywood retrata, a casa real persa, chamada Anderun, era uma instituição política sofisticada. Xerxes parece ter sido casado com apenas uma mulher durante toda a sua vida adulta: a Rainha Améstris. Ela era uma mulher de imenso poder, comandando tropas e possuindo vastas propriedades. No entanto, todo esse poder existia apenas sob o prazer de Xerxes. A casa real abrigava as mulheres mais poderosas do império, que viviam em luxo inimaginável, mas eram, essencialmente, prisioneiras. Elas tinham tudo, exceto autonomia sobre sua própria existência. O mais trágico é que isso não era visto como opressão, mas como a mais alta honra.

Heródoto registrou um incidente ocorrido após a desastrosa campanha grega. Xerxes desenvolveu uma obsessão pela esposa de seu próprio irmão, Masistes. Ela era mãe e vivia conforme as normas da cultura real. Quando Xerxes a procurou, ela disse não. Para a maioria dos homens, isso seria o fim, mas para Xerxes, a resistência era uma desordem no universo que precisava ser corrigida. Ele então mudou o foco para a filha dela, Artaynte, que era sua própria sobrinha. O caso começou e Xerxes, em um ato para demonstrar poder e ferir a mulher que o recusou, prometeu a Artaynte o que ela quisesse.

Artaynte pediu um manto magnífico, tecido pessoalmente pela Rainha Améstris. Xerxes sabia que dar o manto de sua esposa para sua amante era um insulto calculado. Quando a Rainha Améstris descobriu, ela planejou sua resposta com precisão fria. Ela não visou Artaynte, mas sim a mãe dela, a mulher que havia recusado Xerxes e que era, em todos os sentidos, inocente. Durante a celebração do aniversário do rei, onde o monarca era obrigado a conceder qualquer pedido, Améstris exigiu a esposa de Masistes como presente.

A mulher foi entregue e Améstris ordenou mutilações brutais, removendo seus seios, nariz, orelhas, lábios e língua, enviando-a de volta ao marido naquele estado. Foi um dos atos de crueldade mais horríveis da antiguidade, uma mensagem de que a autoridade da rainha naquele domínio era absoluta. O marido da mulher, Masistes, tentou se rebelar, mas a revolta foi esmagada. Ele e toda a sua linhagem foram executados.

Xerxes passou seus últimos anos isolado em seus palácios, consumido pela paranoia. Em agosto de 465 a.C., ele foi assassinado em sua própria cama por uma conspiração liderada pelo comandante de sua guarda pessoal, Artabano. O caos se seguiu, com o filho de Xerxes, Artaxerxes, sendo manipulado para matar seu próprio irmão antes de assumir o trono.

O sistema de isolamento e controle continuou por mais um século e meio, até que Alexandre, o Grande, destruísse Persépolis. As ruínas que restam hoje lembram não apenas a glória, mas as vozes que nunca foram ouvidas e as vidas vividas sob o prazer de outrem. A história de Xerxes é um alerta sobre o que acontece quando sistemas colocam seres humanos além da prestação de contas e confundem poder com divindade. O poder absoluto não corrompe apenas quem o detém, mas todos que participam de sua manutenção.